navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 43, 16-21; Sl 125 (126), 1-2ab. 2cd-3. 4-5. 6 L 2 Flp 3, 8-14 Ev Jo 8, 1-11

Ao ir investigando e perguntando a algum biblista o que terá Jesus começado a escrever com o seu dedo no chão, inclinado diante daquela mulher pecadora, vou descobrindo respostas cada vez mais surpreendentes, a ter que ver com a mensagem deste 5º domingo da quaresma:

1) Uns dizem ser uma questão “bizantina”, meramente especulativa. Seria alguma frase controversa da Lei? Seria um gesto para distrair as atenções?

2) Ou aquele gesto traduziria o desejo de dar uma resposta prudente e pensada. Uma vez que a sua atitude é a de quem não quer condenar. Pois não há n’Ele agressividade nem fanatismo. Para além do nervosismo que aquele silêncio provocaria nos acusadores.

3) Santo Agostinho afirma que, enquanto o Decálogo foi escrito sobre a pedra, Jesus escreve na terra. Isso simboliza que a Lei não deve ser um instrumento rígido de morte, mas flexível como a areia, pois a sua leitura sempre deve considerar as circunstâncias do ato pecaminoso, bem como a situação existencial de cada pessoa. De acordo com o Venerável Beda, quando Jesus escreveu no chão com Seu dedo, Ele estava a lembrar-Se do tempo no Monte Sinai quando Ele escreveu os Dez Mandamentos em tábuas de pedra com Seu dedo. Por outras palavras, o mesmo dedo que havia escrito a Lei naquela época também era o dedo que estava escrevendo no chão agora. Portanto, uma vez que Ele era o autor da Lei, Ele era o Único a interpretá-la e executá-la adequadamente.

No final, por parte dos acusadores, nem duas testemunhas ficam para que aquele julgamento valha, segundo as normas vigentes. Do lado dos réus (aqui também se inclui Jesus a quem aqueles queriam encontrar um motivo para O acusar), ficam precisamente duas testemunhas do amor fiel e misericordioso de Deus.

Resulta da lectio divina desta Palavra o convite a sermos intransigentes com o nosso próprio pecado e indulgentes para com a situação moral dos outros. Não é que Jesus tenha branqueado o pecado daquela mulher, mas Ele tem o poder de escrever a justiça de Deus no sentido de libertar o pecador, seja de que pecado for.

Convertido para Cristo, o Apóstolo Paulo considerou o passado como lixo, para poder correr para os bens prometidos. Ele também confiou em Deus conforme proclama a profecia de Isaías. O profeta lembra-nos que Deus é que pode abrir um caminho novo no meio do deserto das nossas vidas, fazer brotar um rio em terras áridas.

Eu acrescentaria: não é útil compararmo-nos uns aos outros, seja em que termos for, sobretudo morais. Isto é obra do demónio, que teima em nos separarmos no amor de Deus que é para todos. O que eu posso fazer é comparar-me tendo em conta as versões de mim próprio, neste processo de crescimento da fé e para a caridade, através da esperança. Melhorando de dia para dia, posso entrar melhor em comunhão com Deus e com os outros seres humanos.