L 1 Sb 2, 1a. 12-22; Sl 33 (34), 17-18. 19-20. 21 e 23 Ev Jo 7, 1-2. 10. 25-30. O itálico refere-se às admonições do dia.
Ouvi há tempos numa conferência sobre a herança teológica do Papa Bento XVI que uma das estruturas constitutivas do cristão é a que se estabelece entre revelação e ocultamento. Deus sub contrario: Deus revela-Se no que poderia parecer justamente o contrário de Si, de tal forma que esta polaridade resulta desconcertante. Por um lado, Deus revela-se como Criador de tudo quanto existe. Mas, ao mesmo tempo, escolheu esconder essa grandeza n’Aquele que poderia ser desprezado. De facto, a revelação máxima de Deus dá-se em algo tão desapreciável como um homem perseguido e pregado na cruz. Rartzinger reflete que em todo o cosmos, Deus escolheu este ponto insignificante terreno para fazer habitar o seu Filho unigénito, escondendo-Se num povo perdedor como o de Israel, habitando em Nazaré, morrendo na cruz, entregando a sua missão através de um “resto” chamado Igreja. O que repugna é sinal de salvação. Daqui surge uma conclusão: re-velar é mostrar e voltar a velar.
Este pensamento do Papa Bento XVI ajuda-nos a contemplar o Evangelho de hoje, em que vemos Jesus a ir ao templo desviando-se do “campo minado” da Judeia, movendo-Se escondido para não “desperdiçar” a sua “hora”. Mas, naqueles que seriam os oito dias em que decorria a Festa dos Tabernáculos, Ele não passa despercebido aos olhares humanos: uns sentindo atração, outros escândalo, uns respeito e outros irritação. Era óbvio ninguém ficar indiferente, diante das palavras e gestos de Jesus. Diante da Sua presença humano-divina.
Nas leituras de hoje contemplamos O eterno conflito entre o bem e o mal, entre o pecado e a graça, entre o mundo (no sentido de aqueles que não são iluminados pela palavra da salvação) e Deus, reclama finalmente um julgamento, um juízo. E esse juízo vai ser a morte e a ressurreição de Jesus. É aqui que se revela, em toda a sua maldade, o pecado, mas também é aí que ele fica condenado, e se manifesta, em todo o seu esplendor, a verdade, a graça e a vida. Em Jesus crucificado aparece o triunfo da morte, mas em Jesus ressuscitado, o triunfo da Vida. O Mistério Pascal é o juízo de Deus manifestado em Cristo. Quem o entenderá? E, entendendo-o, quem se disporá a aceitá-lo na fé, na esperança, no amor, na ação de graças pascal? A tanto nos quer dispor a liturgia da Quaresma.
