navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 49, 8-15; Sl 144 (145), 8-9. 13cd-14. 17-18 Ev Jo 5, 17-30. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Se Deus sustenta o universo, ao sábado Ele poderia deixá-lo cair? Não. Então Ele trabalha sempre. É por isso que Jesus, diante dos judeus, defende que Ele, como o Pai, trabalham incessantemente. Por conseguinte, a lei do sábado não se pode aplicar de forma idêntica a Deus e aos homens. Porém, aqui engancha outro problema: o facto de Jesus chamar a Deus seu Pai, equiparando-Se a Deus. Os judeus pensavam que Jesus era um homem vulgar.

Todo este discurso serve em João para recapitular a cristologia que ele pretende colocar diante dos olhos da comunidade crente: desde o princípio que Jesus é o Verbo que, feito carne, não só não exerce a sua atividade independentemente do Pai como, por isso mesmo, Lhe é obediente. As suas ações refletem as ações de Deus, a Quem torna visível à nossa humanidade.

A comunhão entre o Pai e o Filho atinge aquilo que constituía a esperança judaica: a ressurreição e a vida. Jesus quer ajudar os judeus a compreender que essa esperança não está transferida para um futuro indeterminado, o “último dia”, mas quer que eles acreditem que essa esperança já está ali, n’Ele diante dos seus olhos. Por isso, lhes diz “Quem ouve a minha Palavra… tem a vida eterna e não será condenado, porque passou da morte à vida”.

Faço uma pergunta retórica: se eram só os judeus que consideravam as palavras de Jesus escandalosas ou se ainda hoje aos seres humanos batizado é ainda difícil assumir as prerrogativas de filhos de Deus, o maior título que alguém pode receber sobre esta terra? Quantas vezes outros “títulos” e “poderes” limitam o poder que está na capacidade de ser filho de Deus? E isto acontece de forma, por vezes, muito sorrateira.

Quando o ser humano crente atira a sua esperança na ressurreição para o dia da sua morte, ignora grande parte do ministério da vida pública de Jesus a respeito da humanidade. A sua Palavra é vivificante no hoje e não mero adorno ou fundo sonoro da vida cristã. Na vida terrena de Jesus deu-se início a vida que se esperava para o mundo futuro. Aos judeus custou-lhes a aceitar isso e por isso mataram Jesus. Para nós, Ele ressuscitou. Acreditamos que a sua Palavra de ressuscitado continua a vivificar. Acreditamos e deixamo-nos transformar pela vida do Batismo? É essa a vontade do Pai que trabalha sempre! Nos ritos iniciais do Batismo, ao perguntar-se aos pais o que pedem para os seus filhos “Que pedis à Igreja de Deus?” eles também podem responder “A vida eterna”.

Façamos do tempo da quaresma que nos resta este ano para nos perguntarmos: até que ponto vivemos a nossa liberdade interior de filhos de Deus, apoiados na confiança em Deus Pai e na coragem de Jesus Cristo? Que a gramática da quaresma seja catapulta para a Páscoa e não mero cumprimento de uma lei. Não deixemos que o instrumental substitua, mas apoie, o objetivo da liturgia vivida no tempo, para o horizonte a que somos chamados.