L 1 Is 65, 17-21; Sl 29 (30), 2 e 4. 5-6. 11-12a e 13b Ev Jo 4, 43-54. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
A primeira secção do Evangelho de hoje evoca o provérbio “um profeta nunca é apreciado na sua terra” para falar da difícil relação de Jesus com os judeus, em contraposição com os galileus que se aventuram a acolhê-l’O contracultura. O que João nos quer ajudar a compreender com esta narração é que a salvação e a fé estão acima de todos os privilégios raciais e de qualquer classe. No caminho de Jesus a Galileia, que O recebeu, chega a ser, inclusivamente, um passaporte para o contacto com o mundo pagão, representado pelo funcionário de Cafarnaum.
As expressões atribuídas ao funcionário real ─ “quando ouviu dizer que Jesus viera…”, “foi ter com Ele e pediu-Lhe que descesse”, “insistiu, “acreditou” e “pôs-se a caminho” ─ demonstram que também é possível acreditar em tempo real e à distância, não só física, mas também da pertença institucional que, por vezes, enclausuram as relações de fé. Aquele homem não era judeu ou, se o era, estava ao serviço de Herodes Antipas.
Eis que uma fé pura ─ a de quem acredita na Palavra de Jesus e se põe a caminho antes da mera verificação de milagres ou sinais (como aconteceu com Maria) ─, por vezes, nos é comprovada por quem se julga institucionalmente distante. Este episódio demonstra-nos que “o dinamismo “acreditar” é um dinamismo que começa numa fé inicial que parece que se vai aprofundando até chegar à total aceitação do Evangelho. E de uma fé pessoal que se transforma num crer familiar: “E acreditou, ele e todos os de sua casa”. A fé pura não é sempre um ato puro, mas um processo de per se complexo.
Este “milagre” da fé de um pagão é o segundo sinal apresentado pelo evangelista João, a seguir ao das bodas de Caná. Serve para nos ensinar o poder vivificante da Palavra de Jesus. Há um rapaz moribundo que é curado, inclusivamente à distância, unicamente pelo poder dessa palavra, sem ter sido tocado e nem sequer visto por Jesus. O episódio mostra-nos os passos do catecumenado ─ passagem de Jesus por entre a situação humana > ouvir sobre Ele > aproximação > petição > proclamação da Palavra > aceitação > transformação ─ como a descrição clara e efetiva da obra de Jesus no seu conjunto. E que a Palavra de Jesus também funciona em “real-time” e “contacteless”… para chegar aos mais distantes!
Em Igreja, o Senhor encaminha-nos para a Páscoa que é nova criação, passagem “a novos céus e a nova terra”. E a Igreja move-nos porque se move também ela em nós e connosco. Não sejamos indiferentes à passagem de Jesus desde os recantos do nosso coração, umas vezes indiferente por uma relação/pertença demasiadamente dada por adquirida, outras vezes pagão porque ainda não evangelizado suficientemente.
A notícia que trago à colação é, precisamente, a oração do psiquiatra italiano Vittorino Andreoli, que tem dúvidas sobre a existência de Deus, mas deseja e procura a sua existência. No seu novo livro explora o tema universal da oração, não só como ato religioso, mas também como momento interior de quem procura um significado para a própria existência. A obra “Preghiera del non credente” representa um diálogo direto e apaixonado com Deus. Ali, o seu autor, num estilo autobiográfico, evoca as perguntas mais profundas da alma humana e dá voz a tantas pessoas que procuram, que não creem, mas que gostariam de crer, ou que acreditavam e não creem mais. Algumas expressões desta “oração dos distantes”: é belíssimo procurar Deus, ainda que não se encontre; a procura torna-se espera, uma condição extraordinária da mente que dá corpo àquilo que ainda não é; é belíssimo pensar de poder ter uma experiência direta de Deus; sei que a Ele agrada encontrar-se e relacionar-se diretamente com as suas criaturas; a maneira melhor para ocupar a espera é a oração; a oração do não-crente exprime a necessidade do divino que está dentro do humano; parece-me impossível eu existir e Deus não; é preciso procurar, porque tu deves estar em qualquer parte do céu, mas eu quero encontrar-te aqui sobre a terra; a alternativa a Deus é o Caos e Deus também é Palavra e não consigo ajoelhar-me diante do Caos, diante de Deus sim; a beleza e a complexidade do universo não podem ser o resultado do Caos; se penso a um Deus distante, separado, enorme, Rei dos reis, soberano sobre a terra, não experimento nenhum entusiasmo nem interesse; sinto necessidade de um Deus que me possa escutar dentro deste labirinto; também é difícil sair do labirinto das palavras humanas, porque cada homem arrisca-se, pensando em Deus, a construir a própria cela habitada pela dúvida e pelos próprios limites; o cérebro humano não pode compreender-te, és um mistério; até o homem é desconhecido para si mesmo; talvez tenhas feito o homem incapaz de reconhecer-te, no entanto fizeste-o capaz de desejar-te, de encontrar-te; porquê? Será porque queres permanecer escondido no escuro da razão, enquanto estás vivo na “lógica dos sentimentos”?
Diante desta oração desde o desejo e a necessidade e a procura de Deus, rezo para que nas nossas catequeses e testemunhos de crentes, em Igreja, haja mais coração, compaixão diante das situações humanas, haja mais boa disposição, um reto sentir-se com (ortopatia) para além e aquém de um reto dizer (ortodoxia) e de um reto fazer (ortopráxis). Uma forma de atrair os outros para o Médico que é Cristo que nos ajuda perceber que a Verdade não é só uma realidade absoluta a ser fixada pela mente, mas também uma Lei a ser traduzida em boas ações, e antes que tudo um Amor que quer salvar a humanidade por um Caminho e para a Vida. E isto está tudo em Jesus Cristo, num convite a que esteja também em cada pessoa. Oremos, irmãos.
