L 1 Ex 3, 1-8a. 13-15; Sl 102 (103), 1-2. 3-4. 6-7. 8 e 11 L 2 1Cor 10, 1-6. 10-12 Ev Lc 13, 1-9, no III Domingo da Quaresma (Ano C). Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Um dia, um pai, ao chegar a casa, pôs-se a ler uma revista e a olhar para a TV ao mesmo tempo, para abrandar depois de um dia cansativo de trabalho. No entanto, o seu filho pequeno que estava ali a brincar ao pé dele, não deixava de lhe fazer perguntas, curioso sobre o seu dia e sobre a vida. O pai, encontrando nas páginas centrais da revista uma imagem do globo terrestre teve a ideia de a destacar, de a rasgar aos bocadinhos e de a dar ao filho com um rolo de fita-cola, propondo-lhe que voltasse a unir os pedacinhos para voltar a reconstruir o mundo. E o seu filhote, que gostava de desafios deste, aceitou alegremente. E o pai continuou a descansar do seu dia de trabalho. Qual o seu espanto, quando o seu filho veio logo após alguns poucos minutos dizer-lhe: papá, já fiz o desafio que me deste. Ao que o pai exclamou: “Como foste capaz de reconstruir o mapa do mundo assim tão rápido?” Foi fácil, papá: ao ver que era difícil reconstruir o mapa do mundo, descobri que no seu verso estava o rosto de um homem. Então, como conheço melhor o rosto de um homem, comecei por reconstrui-lo. Quanto consegui concertar o homem, virei a folha e vi que tinha conseguido concertar o mundo.
Moral da história: querer consertar o mundo sem consertar o homem não só não é fácil, como não é possível. Mesmo para os adultos. A sabedoria de Deus convida-nos a começarmos por nós mesmos. Uma boa educação para um crescimento feliz implica aprendermos a conhecer-nos a nós próprios e a consertar aquilo que, por vezes, não está bem. Só assim viveremos uma vida bem conseguida, capazes de contribuir para um mundo melhor para todos.
Foi o que Jesus começou por fazer na sua vida pública. A sua missão resumiu-se a ensinar e a curar. O cuidado de Jesus para com as pessoas foi isso: ensinar e curar.
A primeira mensagem de Jesus no Evangelho é para corrigir e se distanciar de uma tendência de as pessoas pensarem que as catástrofes e as coisas más que nos acontecem são castigos de Deus. A resposta de Jesus é clara: não é Deus que faz cair torres ou palácios, não é a mão de Deus a arquiteturar tragédias ou guerras. E, no entanto, diante das desgraças vêm sempre as perguntas sobre Deus: porquê, meu Deus? Onde estavas, quando isto aconteceu?
No tempo de Jesus aconteceu que alguns peregrinos da Galileia foram ao templo de Jerusalém para oferecerem sacrifícios. Por causa da euforia religiosa ou da festa ocorreram distúrbios. O que Pilatos fez? Acabou com os distúrbios mandando acabar com as vidas de quem tinha causado distúrbios, misturando o seu sangue com o dos animais sacrificados. Jesus contou outro episódio de uns homens que não sobreviveram à queda de uma torre. Usou estes exemplos para ensinar que não eram mais pecadores que os outros por causa destes castigos e acidentes.
O primeiro ensino fundamental de Jesus é que a morte e as desgraças não acontece só aos culpados e, portanto, não têm ligação direta uma coisa com a outra. Não se pode confundir Deus com uma espécie de juiz ou de mestre da desgraça que sanciona imediatamente as ações dos homens, premiando exteriormente os bons e castigando os maus. O juízo de Deus não tem nada que ver com as formas de julgar humanas. Não quer isto dizer que os seres humanos não tenham de ter formas de cumprir a ordem. Mas isso não limita a forma de Deus lidar com os nossos maus momentos. E não quer, também, isto dizer que Deus não venha a julgar a humanidade, no tempo que Lhe aprouver, tempo esse que é apresentado como estando próximo.
Jesus não condena Pilatos e os culpados galileus, mas também não os aclama heróis. Porque Pilatos estava a governar sob a autoridade do Estado e os pobres galileus estavam eufóricos por causa das relações entre política e religião.
Para nos ensinar a lidar com estas circunstâncias, Jesus conta a parábola da figueira. Com ela Ele, por um lado, alerta-nos que fomos criados para vir a dar frutos. Por outro, para virmos a dar fruto contamos com a paciência de Deus, nos que dá muitas oportunidades, mas também que precisamos de ser “adubados” com a escuta da Palavra de Deus e “podados” com escolhas de conversão.
O mundo está, hoje como no tempo de Jesus e no tempo de Moisés, cheio de episódios de conflitos entre os seres humanos, lutando por um pódio de fama, poder e prazer, e de uma forma que resulta na destruição de seres humanos inocentes e na devastação da criação que Deus realizou para nos sustentar a todos. Urge voltar lá atrás para escutarmos o convite de Deus a Moisés: “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada”. A que terra nos referimos hoje? À dignidade humana infinita! Aos direitos humanos fundamentais que é preciso reafirmar. Aos mandamentos da Lei de Deus que no-los ajudam a reafirmar. Ao Reino de justiça, paz e amor de que somos convidados a aproximarmos e a habitar.
Jesus não assistiu aos acontecimentos do seu tempo de forma passiva, mas com-passiva. Quer dizer: envolveu-se colocando a sua vida em jogo. Pondo o dom da sua vida à disposição de todos. Hoje, para nós, a “sarça que arde sem parar” é a Eucaristia, onde Jesus Cristo, o novo Moisés, serve de alicerce como “rochedo novo” e nos alimenta, para podermos vir a dar fruto abundante de boas obras.
Jesus traz-nos o convite à conversão, mas não o faz de modo que o recebemos como algo meramente austero, mas Ele fá-lo com um tom, o tom de quem também se “converteu” à nossa humanidade, para nos podermos, pela fé, esperança e caridade, converter-nos à sua divindade.
Estamos na quaresma, que é tempo oportuno para a nossa conversão pessoal. A quaresma, em cada ano, significa aquela paciência que Deus continua a ter para connosco, dando-nos oportunidades para renovarmos a nossa vida. É um tempo em que Deus, como um bom pai, cuida de nós. Nós somos a corresponder-lhe com o nosso amor generoso, traduzido em boas ações em favor dos irmãos. Quaresma é o tempo oportuno para cuidarmos da nossa humanidade para conseguirmos cuidar do mundo. É tempo para caminharmos juntos na esperança.
