navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Dn 9, 4b-10; Sl 78 (79), 8. 9. 11. 13 Ev Lc 6, 36-38

A relação com os outros determina a nossa relação com Deus e vice-versa. A relação com Deus e a relação com as outras pessoas discorrem sempre em paralelo e que uma para a outra podem ser banco de prova ou controlo de autenticidade. Porque é o mesmo coração humano que entra em contacto com Deus e com os outros. Por esta razão, quem alcança uma atitude contemplativa no seu trato com Deus será também compreensivo com as pessoas com quem se relaciona e se abrirá a elas com confiança e paz. Claro que também é certo o contrário: quem não é capaz de entender os seus semelhantes e de comunicar-se com eles, tão pouco chegará longe na sua relação com Deus.

─ FRANZ JALICS, Escutar para ser. Dimensão contemplativa das relações interpessoais, p. 19

Os principais ensinamentos do jesuíta Franz Jalics a respeito da dimensão contemplativa das relações interpessoais são os seguintes inclui a lei da proporcionalidade, propícia para entendermos e pormos em prática o Evangelho de hoje. Acrescenta ele:

A relação que se mantém com Deus, com os outros e consigo mesmo é exatamente proporcional. (…) Queres saber a relação que manténs com Deus? Olha a relação que tens com os outros. Se amas uma pessoa, queres bem a dez, toleras umas vinte, és indiferente a umas sessenta, há treze ou catorze que, francamente, não te fazem muito felizes, e uma ou duas às que nem sequer as podes ver; exatamente assim é a tua relação com Deus: ama-Lo em um por cento, te deixa indiferente em sessenta por cento, resulta-te agradável em uns dez por cento, tolera-l’O em vinte por cento e assim sucessivamente. (…) Se nos ficamos só nos grandes princípios, corremos o risco de a mensagem nunca chegar ao coração do homem. Em qualquer caso, tudo isto o diz a Sagrada Escritura, de forma mais retumbante: «Quem diz amar a Deus e não ama seus irmãos, é um mentiroso» (1Jo 2, 4).

Convertermo-nos a Deus implica convertermo-nos aos irmãos, na mesma medida. Não há caminho de conversão que não passe pela “ponte” do irmão. Não se trata meramente ou primeiro sermos melhores para ajudarmos os outros a ser melhores, porque não ajudamos os outros a ser melhores desde a superioridade. Pelo menos, não foi assim que Cristo nos salvou. Foi abaixando-Se. A este respeito, é muito eloquente o artigo de opinião do Padre Diamantino (Diocese de Lamego) com o título A iminência da morte e a morte da eminência, em que ele nos explica que a “morte nivela-nos” e “começa a fazer sentido a morte da nossa eminência. Se nada pode impedir a morte, se ninguém a pode adiar, de que serve querer enfrentá-la num patamar superior? De que vale arrogarmo-nos mais ou melhores que alguém, se na hora mais certa, mais surpreendente e mais importante da nossa vida a morte cala-nos a todos por igual?”.

Ao refletir sobre a Palavra de hoje cruzei-me com a notícia de que morreu aos 88 anos James Harrison, o homem australiano que salvou mais de dois milhões de bebés, doando sangue 1173 vezes, ao longo de cinco décadas. O seu plasma tinha uma concentração invulgar de anticorpos anti-D utilizados na prevenção de doença hemolítica. Aos 14 anos, esteve internado três meses devido a um problema pulmonar e a sua vida foi salva graças a uma cirurgia e uma série de transfusões. Apesar da sua fobia de agulhas, que nunca superou, o então jovem australiano decidiu retribuir a solidariedade de doadores anónimos e tornar-se, ele também, um doador de sangue. Dizia: “Eu quis muito doar sangue, logo após a operação, porque não sabia quantas pessoas tinham sido necessárias para salvar a minha vida. Nunca as conheci”. Ao cumprir 18 anos, em 1954, começou a doar sangue e plasma a cada duas semanas. Na década seguinte, descobria-se o papel dos anticorpos anti-D e que o sangue de Harrison tinha uma composição invulgar e valiosa.

Esta notícia levou-me à Autobiografia do Papa Francisco, “Esperança”, onde descobrimos porque é que ele dá tanta atenção e apoio à questão da imigração: “Não imaginam quantas vezes me encontrei a agradecer à Providência Divina. Também eu nascera numa família de migrantes, o meu pai, o meu avô, a minha avó, tal como tantos italianos, haviam partido para a Argentina e tinham conhecido a sorte de quem fica sem nada. Também eu poderia ter estado entre os rejeitados de hoje, de tal modo que no meu coração reside sempre uma pergunta: porquê eles e não eu? Isto é verdadeira solidariedade!”

Diante destes testemunhos de solidariedade para com os outros, descobrimos que os que vivem neste estilo apoiam-se não num mero dever fazer, mas numa perscrutação da ação de Deus nas vidas humanas, levando-os a responder-Lhe através do bem em favor dos irmãos. Um agradecimento a Deus bypassado pelo bem em favor dos irmãos.

Rezo, diante destes exemplos, para que os seres humanos sejam capazes de dar conta de que as suas vidas dependem de Deus e de que a vida dos nossos irmãos depende um pouco de nós. E que as boas ações sejam um anúncio de paz.