L 1 Dt 26, 16-19; Sl 118 (119), 1-2. 4-5. 7-8 Ev Mt 5, 43-48
Ser perfeitos como o Pai celeste, como o Senhor Jesus nos exorta, implica usar a liberdade pessoal para amar os inimigos. O que significará isto? Concordar com os factos que os levam a ser nossos inimigos? Certamente, não. Para podermos, então, entender porque é que e de que forma amar os inimigos, ajuda-nos a distinção entre dignidade ontológica e dignidade moral presente na Declaração Dignitas infinita sobre a dignidade humana (n.º 7b):
Quando se fala de dignidade moral, deseja-se referir ao exercício da liberdade por parte da criatura humana. Esta última, ainda que dotada de consciência, permanece sempre sujeita à possibilidade de agir contra ela. Fazendo assim, o ser humano se comporta de um modo que “não é digno” da sua natureza de criatura amada por Deus e chamada a amar os outros. Mas esta possibilidade existe. E não só: a história atesta que o exercício da liberdade contra a lei do amor revelada pelo Evangelho pode alcançar picos incalculáveis de maldade provocada aos outros. Quando isso acontece, encontra-se diante de pessoas que parecem ter perdido qualquer traço de humanidade, qualquer traço de dignidade. A este respeito, a distinção aqui introduzida ajuda a discernir propriamente entre o aspecto da dignidade moral, que pode ser de fato “perdida”, e o aspecto da dignidade ontológica, que não pode jamais ser anulada. E é justamente em razão desta última que se deverá trabalhar com todas as forças para que todos que cometeram o mal possam arrepender-se e converter-se.
Já na liturgia da Palavra de ontem Jesus nos tinha recomendado de não chamar a nenhum irmão “imbecil” (no grego Ῥακά = vazio, sem sentido) e “louco” (no grego Μωρέ = louco, “deficiente” ético ou espiritual) não terá perdão. É o mesmo que dizer que um irmão, seja ele quem for, é incapaz de Deus. Proibido!
Assim, desde este ponto de partida, há que aproveitar a humanidade relacional que Deus nos dá para restaurarmos a semelhança que temos a Ele. É através do amor até ao limite, apoiados numa ética, não meramente assente em leis universais, mas sobretudo numa ética personalista do cuidado.
A primeira leitura fala-nos do convite ao cumprimento dos mandamentos da Lei de Deus, mas não deixa de exortar a que o povo escute a voz de Deus. Ora, a voz de Deus é luz na escuridão. Isto sugere que o acompanhamento de Deus nos confrontos com o seu povo através dos patriarcas e profetas é um caminho dinâmico e evolutivo. D. António Couto, na sua Carta Pastoral “Jubileu, o país da vida agraciada” (Lamego, Plano Pastoral 2024-2025, pp. 4-10), fala dos “princípios fundamentais de interpretação” para uma boa leitura da Bíblia: a lei da precedência e da antiguidade, a lei da conservação, a lei da continuidade e atualização, a lei da economia (só se escreve o necessário) e a lei da transformação da vida. Estas leis juntas ajudam a valorizar o que é antigo (o fundamental) não o deitando fora (conservando) e atualizando-o (“porque a tradição conserva apenas o que tem valor para o presente”), transmitindo o essencial (em poucas palavras numa linguagem clara) para que as pessoas possam estar informadas e ser (trans)formadas com a forma performativa da Palavra.
A utilidade de conservar na memória as leis que não estão atuais, tanto quanto não se deve esquecer o holocauso, é a de que há procedimentos culturais/morais que não se devem repetir. Jesus fez o mesmo com a lei do amor e a lei do ódio. Acabou com esta para amplificar a vivência do amor até ao infinito.
Um discípulo de Jesus que jamais pudesse crescer na perspetiva ou de viver a maturidade que está no amar os inimigos, iria descartar a hipótese de não ser missionário, ignorando a força da Palavra que se é chamado a testemunhar. Um discípulo-missionário, dentro do povo “inclusivo” de Deus, é como a sociedade antiga referenciada na Bíblia: “Não deita nada para o caixote do lixo. Não tem caixote do lixo. Não se elimina nada. Corrige-se e interpreta-se” (cf. D. António Couto, op. cit.). É o que acontece com os códigos das leis. Não haveria de acontecer assim também com as pessoas?! É preciso saber quem são os nossos adversários, porque e como o são e “fazermos as pazes com eles enquanto estamos no caminho”.
