navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Dt 26, 4-10; Sl 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15 L 2 Rm 10, 8-13 Ev Lc 4, 1-13, no Domingo I da Quaresma. Reflexão inspirada em parte em Ermes Maria Ronchi

O caminho quaresmal está desenhado, na liturgia, entre duas margens: a cabeça e os pés. Sim precisamos de deixar que Jesus nos ajude a percorrer este caminho da cabeça aos pés. Assim o descreveu o bispo italiano D. Tonino Bello:

Queridos, cinzas na cabeça e água nos pés. Entre estes dois rituais, o caminho para a Quaresma é suave. Uma estrada, aparentemente, pouco menos de dois metros. Mas é muito mais longo e mais cansativo. Porque é sobre começar da própria cabeça para chegar aos pés dos outros. Quarenta dias de Quarta-feira de Cinzas à Quinta-feira Santa não são suficientes para atravessar. Leva uma vida inteira, o tempo em que a Quaresma quer ser a redução em escala.

Portanto, as pregações mais eloquentes da quaresma são os sinais, mais do que as palavras. Mais do que sinais de poder, o Evangelho ajuda-nos a descobrir o poder que está nos sinais. Sinais que nos levam a descobrir a relação íntima e poderosa, por exemplo, que existe entre a pobreza e a beleza, entre a fragilidade e o serviço, entre nós e Deus.

Outros sinais potentes que incidem no fundo dos corações humanos são as tentações no deserto frequentado por Jesus e do qual nenhum cristão escapa. São tentações onde estão encerrados os três tipos de relação com o eu: as coisas, consigo próprio e com o outro, incluindo Deus. Santo António Abade, no século IV, dizia: “se suprimires as tentações e ninguém se salvará”. Porque ninguém teria mais a possibilidade de escolher e escolher é viver o nosso direito de liberdade, um chamamento para o futuro. Posso escolher entre ser grato ou predador, entre a fé ou a superstição, entre um Deus “bombeiro” ou um Deus que é Pai, entre impor-me aos outros ou servi-los.

As tentações não se evitam, mas atravessam-se. Como se faz? Só com a vontade? Parece que Jesus usa uma outra estratégia: responder com a Palavra não a manipulando, mas fazendo ver que há realidades que nutrem mais que outras, palavras que revelam uma mais alta forma de existência. Jesus coloca diante do inimigo um bem maior do que aquele que ele propõe. Aprendemos com Jesus a vencer as tentações, através da fidelidade e da nossa confissão de fé ao Pai.

É bom notarmos que o Espírito que conduziu Jesus ao deserto não O abandonou; está com Ele até ao fim. É o que somos chamados a não esquecer também nós os crentes: nós não somos melhores que os outros, mas podemos dizer que não estamos sós, não estamos abandonados, sentindo no caminho do deserto o sopro da brisa suave que nos inspira a não deitar a perder a obra que o Senhor em nós começou.

Jesus passou pelo deserto antes da sua vida pública, na qual passou fazendo o bem. A finalidade da nossa ascese quaresmal também é esta: viver a vida quotidiana imitando Jesus no bem para com os nossos irmãos. Durante este ano jubilar, o Papa Francisco fala-nos de mais alguns sinais que nos podem ajudar a ser peregrinos da esperança: a paz, a vida, os presos, os doentes, os jovens, os migrantes, os idosos, os pobres.

Que possamos atravessar este deserto quaresmal confiantes de que o Espírito Santo nos acompanha e inspira a fazermos as melhores escolhas para podermos ser sementes de um mundo melhor, aberto aos valores que nos lançam para a vida eterna.