L 1 Is 58, 9b-14; Sl 85 (86), 1-2. 3-4. 5-6 Ev Lc 5, 27-32
A profecia de Isaías continua a insistir que o chão sobre o qual caminhamos nas práticas da ascese quaresmal é a prática da caridade que supõe a justiça. Por outro lado, o profeta convida à consagração do Dia do Senhor. Tiramos daqui que o amor de Deus e o amor ao próximo são as duas asas do espírito com que nos podemos elevar para Deus.
O chamamento de Levi (Mateus) mostra-nos que o caminho de qualquer vocação cristã é o chamamento do pecado à graça, portanto, um caminho de conversão. Este episódio, estranho para os escribas, mostra-nos também que em Jesus andam juntas a caridade e a justiça. A caridade porque se aproxima de um pecador para o chamar, a justiça porque quer tirá-lo de uma vida de corrupção. Com o chamamento, Jesus aproxima Levi de Deus a Quem ignorava e dos irmãos a quem prejudicava. E isto resulta numa festa.
Na quaresma, Jesus olha para nós como olhou para Levi: com olhar de misericórdia e chama-nos a segui-Lo. A quaresma é este tempo oportuno para respondermos com prontidão, à maneira de Levi. A resposta dá imediatamente lugar a um banquete. É o iniciar de uma nova relação com o Mestre. Assim é cada Eucaristia em particular e os sacramentos da Igreja em geral: remédio e alimento para o caminho de salvação.
A prontidão de Levi ao chamamento de Jesus a segui-Lo é consequência de uma qualidade do Mestre que nós somos chamados a imitar, como se concluiu na XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (n. 51):
É para os Evangelhos que devemos olhar para traçar a conversão que nos é pedida, aprendendo a fazer nossas as atitudes de Jesus. Os Evangelhos “apresentam-no constantemente à escuta das pessoas que se aproximam dele pelos caminhos da Terra Santa” (DTC 11). Quer sejam homens ou mulheres, judeus ou pagãos, doutores da lei ou publicanos, justos ou pecadores, mendigos, cegos, leprosos ou doentes, Jesus não manda ninguém embora sem parar para escutar e sem entrar em diálogo. Revelou o rosto do Pai vindo ao encontro de cada pessoa onde se encontra a sua história e a sua liberdade. Da escuta das necessidades e da fé das pessoas que encontrava, brotavam palavras e gestos que renovavam as suas vidas, abrindo caminho a relações restauradas. Jesus é o Messias que “faz ouvir os surdos e falar os mudos” (Mc 7,37). Pede-nos a nós, seus discípulos, que nos comportemos do mesmo modo e dá-nos, com a graça do Espírito Santo, a capacidade de o fazer, modelando o nosso coração no seu: só “o coração torna possível qualquer ligação autêntica, porque uma relação que não é construída com o coração é incapaz de superar a fragmentação do individualismo” (DN 17). Quando nos pomos à escuta dos nossos irmãos e irmãs, participamos na atitude com que Deus em Jesus Cristo vem ao encontro de cada um.
