navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jl 2, 12-18; Sl 50 (51), 3-4. 5-6a. 12-13. 14 e 17 L 2 2 Cor 5, 20 – 6, 2 Ev Mt 6, 1-6. 16-18, na Quarta-feira de Cinzas. Inspirado, em parte, no “Meditar a Palavra” de Pe. Pedro Rodrigues (Liturgia Diária de Março 2025)

Hoje temos a graça de iniciarmos o tempo da Quaresma, no qual somos convidados pelo Santo Padre a caminhar juntos na esperança. Neste apelo a uma renovada conversão, a liturgia da Igreja recorda-nos os gestos, reflexões, cores, cânticos e rituais específicos. Cabe a cada um de nós partir deste calendário cíclico, isto é, de um tempo quantitativo, a um tempo qualitativo que é ocasião de graça, onde a repetição de algo é renovada pelo modo novo de acolher, viver e pensar.

A Quarta-Feira de Cinzas, com que inauguramos o tempo da Quaresma, é um período de recolhimento espiritual, em que os cristãos são desafiados a lembrar-se de que “do pó viemos e ao pó voltaremos”. A condição do ser humano é frágil e é preciso despertarmos a consciências da futilidade das vaidades terrenas e a necessidade de uma verdadeira conversão. É preciso recordar a efemeridade da vida e reconhecer a importância da conversão.

Nesta celebração afirmamos crer que Deus Se compadece daquele que se humilha e perdoa àquele que se arrepende. A imposição das cinzas que vamos benzer são um sinal de, que apoiados neste Deus misericordioso, queremos ser fiéis à observância quaresmal, para podermos vir a chegar de coração purificado à celebração do mistério pascal de Seu Filho Jesus Cristo.

No meio das inquietações deste mundo, o que é que de verdadeiramente importa? É precisa uma conversão genuína, uma vez que a vida é breve e os bens materiais são ilusórios. Experimentemos os seus três passos:

A conversão é a “metanoia”, quer dizer, mudança de mentalidade. Começa por ser um convite à conversão intelectual, ou seja, a que conduz a um esclarecimento radical no plano do conhecimento, abre à verdade, desenvolvendo em nós a capacidade para o realismo crítico. Daquilo que “me parece” pelos sentidos, passa-se à observação mais objetiva da realidade, daquilo que “é em si mesmo”. Esta mudança de mentalidade abrir-nos-á as portas para a conversão moral, a que modifica o critério das próprias escolhas: do que é ditado pelas próprias satisfações passa-se a agir segundo o critério dos valores morais objetivos e transcendentes, últimos pontos de referência diante dos quais nós somos chamados a conformarmo-nos para garantir a descoberta da nossa autenticidade. Garante uma autocrítica diante dos próprios conhecimentos, das próprias intenções e ações em ordem aos valores. Finalmente, almejamos experimentar a conversão religiosa, que consiste em «ser presos por aquilo que nos toca absolutamente. É enamorar-se de forma ultramundana. É entregar-se totalmente e para sempre sem condições, restrições, reservas». Este entregar-se é um estado dinâmico e não um ato simples. Manifesta-se na consciência existencial através da aceitação estabelecida de uma vocação específica à santidade. Não há, por assim dizer, fim para esta conversão, ilimitados como são o dom de Deus e a inquietude do homem crente. (Cf. B. LONERGAN, O Método em Teologia)

O jejum, a esmola e a oração podem ser três instrumentos que, realizados em segredo, nos podem ajudar a dar aqueles três passos da conversão. O Papa Francisco, na sua mensagem para esta Quaresma, faz-nos também três apelos que podem qualificar os instrumentos da quaresma (jejum, esmola e oração): o primeiro é “caminhar”, deixando-nos interpelar por quem vive a experiência concreta de migrante; o segundo é fazer esta viagem “juntos”, convertendo-nos à sinodalidade; e o terceiro é vivermos este tempo confiantes, “na esperança de Deus cumpre a sua promessa, a vida eterna”.