L 1 Sir 6, 5-17; Sl 118 (119), 12 e 16. 18 e 27. 34 e 35 Ev Mc 10, 1-12
C S. Lewis tem uma obra intitulada os quatro amores, que aprofunda a natureza do amor na perspetiva cristã, distinguindo a necessidade do amor do amor divino. E as quatro categorias que propõe são: o afeto ou amor fraternal, a amizade, o eros ou amor romântico e o ágape ou amor incondicional.
A primeira leitura fala-nos da amizade e dos seus segredos, ajudando-nos a distinguir o verdadeiro do falso amigo, e a construir uma verdadeira amizade com o temor a Deus. C. S. Lewis concorda com esta leitura que afirma ser o amigo um tesouro, reafirmando que a amizade é o maior dos bens. Um dos benefícios da amizade é o enfraquecimento da solidão e as dificuldades da psique humana. A Amizade é extremamente útil para o indivíduo, talvez necessária para a sobrevivência. Até apresentam um grande número de justificativas: “todo homem está sem defesa a não ser que tenha um irmão/amigo”, e “existe amigo mais apegado do que um irmão”. Mas, quando falamos dessa maneira, usamos a palavra amigo com o significado “aliado”.
Já quando se refere ao amor romântico, aquele autor declara: Cristo amou a Igreja — e o texto prossegue — e entregou-se por ela (Efésios 5:25). Essa liderança, então, é mais completamente incorporada não no marido que todos nós desejamos ser, mas naquele cujo casamento é mais semelhante a uma crucificação; cuja esposa recebe mais e dá menos, e de forma nenhuma é merecedora dele, e é — por sua mera natureza — menos digna de amor. Pois a Igreja não tem qualquer beleza a não ser aquela que o Noivo lhe dá, e ele não a encontra bela, mas a faz ficar assim. A este respeito, a resposta de Jesus aos escribas sobre a questão do repúdio da mulher, faz-nos crer que na união entre o homem e a mulher o amor romântico terá de evoluir para o amor incondicional ou agápico, para que a relação mútua seja expressão vocacional da caridade divina.
Há dias, encontrei numa revista on-line um curioso depoimento de Stephen Kanitz, especialista em parentalidade traz a seguinte reflexão: Dizem que hoje em dia o divórcio é inevitável, não dá para escapar, ninguém aguenta conviver com a mesma pessoa por uma eternidade. Eu, na realidade, já estou em meu terceiro casamento – a única diferença é que me casei três vezes com a mesma mulher. Minha esposa, se não me engano, está em seu quinto casamento comigo, porque ela pensou em pegar as malas mais vezes do que eu. O segredo do casamento não é a harmonia eterna. Depois dos inevitáveis arranca-rabos, a solução é ponderar, se acalmar e partir de novo com a mesma mulher. O segredo no fundo, é renovar o casamento, e não procurar um casamento novo.
Talvez a missão dos pastores em relação a estes amores seja a de ajudar os amigos e os casais a recomeçar a partir do primeiro amor incondicional que é o de Deus. A linguagem do tempo litúrgico que se cruz com o ritmo social da vida humana é a da penitência para um bem maior, a partir da experiência do “adeus à carne”, que é o mesmo que dizer carnaval.
