navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Sir 4, 12-22 (gr. 11-19); Sl 118 (119), 165 e 168. 171 e 172. 174 e 175 Ev Mc 9, 38-40. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007. O itálico refere-se às admonições do dia.

A tentação de João é a tentação em que podem cair os cristãos mais comprometidos de todos os tempos, pisando o risco de pensar que a palavra “comunhão” já é uma palavra gasta ou só a atribuem ao ato de comer a Hóstia. Quando uma eclesiologia de comunhão falha começa uma espécie de “inquisição”. Quem poderá dizer que tem o “monopólio” de Jesus? Não erramos muito no alvo se todos agora pensarmos num político que usa o nome de Jesus para dizer: somos nós que vamos trazer a paz.

Qual será o critério objetivo para distinguir os verdadeiros dos falsos profetas? Enquanto muitos escritores sagrados fazem depender esta resposta do comportamento ético, de uma clara confissão doutrinal, de uma relação positiva com uma comunidade no seu conjunto ou do cumprimento das profecias, o evangelista Marcos quer exortar a sua comunidade a não se atribuir a máxima importância e, sobretudo, a não pretender para si o sacrílego monopólio do Filho de Deus.

A escola de Jesus não é fechada nem exclusivista. Ele é, realmente, o Caminho e a Verdade; e todo aquele que procede bem e de boa fé já avança pelos seus caminhos, mesmo que o não saiba. E aqueles que já têm a graça de O conhecer hão de de olhar com simpatia os que se esforçam por ir ao seu encontro, para que finalmente todos venham a reunir-se no mesmo e único redil do único Pastor. Os que procuram a sabedoria de Deus vêm de muitas latitudes ao encontro do mesmo ponto de atração da fé que é Jesus Cristo. Já o Sínodo sobre a Sinodalidade, ao encontro da primeira assembleia geral, no seu documento preparatório (nn. 17-21), nos tinha lembrado que os atores em jogo no advento do Reino são Jesus, a Multidão e os Apóstolos; e até menciona um elemento extra que é o antagonista, “o que traz à cena a separação diabólica…”. Com Jesus queremos juntar, não separar.

Como nos confirma a primeira leitura, servir, escutar e confiar essa sabedoria leva a passar por caminhos de disciplina. E quem superar as suas mesmas exigências irá ao encontro com alegria à revelação dos seus segredos. Deus é o próprio pedagogo que perseguem a verdade, seja em que distância estiver. Hoje, os pastores, os catequistas e outros educadores da fé são chamados a ser mais orientadores nos processos de crescimento, do que meramente reguladores, sem correr o risco de bloquear processos de crescimento na proposta do Reino.

O padre jesuíta Domingos Terra, num pequeno artigo da Revista Mensageiro (março 2025), falando da “Regulação eclesial da fé cristã: Teologia e Magistério, sugere que “a reflexão teológica e o magistério oficial são duas tarefas eclesiais distintas, ambas necessárias, atuando no mesmo espaço que é a Igreja tendo em vista um fim comum: o serviço da Palavra de Deus e a transmissão da fé apostólica. Não admira que surjam tensões, porque são duas responsabilidades distintas. Se por um lado não se pode tirar à teologia a sua competência argumentativa, por outro lado, o magistério mantém o seu poder de decisão quanto ao que ela venha a afirmar. A palavra da teologia é penúltima, enquanto a do magistério é a última. Estas considerações são-nos úteis para relacionar a postura teológica de João a respeito de um caso prático e o papel magisterial de Jesus. De vez em quando, quer os leigos informados, quer os presbíteros encontram-se no meio desta tensão com os respetivos bispos. Cabe àqueles colocar situações em discussão e cabe aos pastores dirimir questões tendo em vista o bem da missão da Igreja, em obediência a Cristo. Por vezes, até se escuta de um superior “queres ser mais papista que o papa?”. Significa que há um excesso de zelo doutrinal ou teológico a obstruir o bem maior ou o bem possível, em favor da comunhão que abre caminho à participação em prol da missão.