L 1 Gn 8, 6-13. 20-22; Sl 115 (116), 12-13. 14-15. 18-19 Ev Mc 8, 22-26. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
O episódio agora mesmo proclamado é relatado no contexto da cegueira dos fariseus e dos discípulos. A narrativa do que parece ser um acontecimento real traz-nos, ao mesmo tempo, uma carga simbólica própria de um processo catecumenal.
Como aconteceu noutros episódios de cura, Jesus faz gestos que, à primeira vista, poderiam parecer mágicos, mas não. Jesus usa a linguagem tátil, a única que o cego poderia compreender. Isto significa que Jesus adapta-Se às circunstâncias de cada pessoa necessitada de cura, para que a mesma participe com a sua consciência ativa.
Este episódio fez-me pensar quando os que usam óculos vão ao oftalmologista. Há uma tela com letras de diversos tamanhos afixada na parede e o médico vai colocando nuns óculos especiais várias lentes até ao paciente conseguir vez bem e o melhor possível as letras mais pequeninas. Não é a tela que se aproxima ou se afasta. É o médico que adequa a gradualidade ao paciente, para que este possa ver o melhor possível. Acontece algo semelhante entre a mensagem do Evangelho e a situação do sujeito que pede cura e o Jesus vai adequando o procedimento e usando táticas diferentes para que o sujeito possa ver o melhor possível, para poder ver bem o caminho para casa.
A cura acontece em dois momentos: um em que o cego vê os homens a caminhar como árvores; e outro em que é completamente curado. É preciso notar que o milagre se adapta ao curso normal da recuperação natural. E todo o percurso termina com a tendência de Marcos: é preciso não fazer do milagre um motivo de atitudes triunfalistas. Para Marcos, é preciso defender o “segredo messiânico”. É preciso, também, fazer notar que cada milagres acontece no diálogo entre a fé das pessoas e o poder terapêutico de Jesus.
Quanto mais se fala de milagres, mais se obscurece a fé verdadeira e a visão do poder terapêutico de Jesus. Basta o testemunho de quem se vê curado. Para os crentes, não há necessidade em medir forças com outras confissões de fé sobre os milagres, porque o verdadeiro crente não tem nenhuma dificuldade em admitir que Deus usa recursos naturais para fazer verdadeiros “prodígios” ou “sinais”, quando ainda não existe explicação humana. Por outro lado, a verdadeira fé não vem dos milagres, mas pressupõe-na.
Então, a fé é um dom escondido dentro de cada um de nós, que nos faz avançar para o Senhor. As duas etapas deste milagre pode fazer-nos lembrar o antes e o depois de uma maior consciência de sermos batizados; pode fazer-nos lembrar a relação entre a vocação à vida cristã e uma vocação de especial consagração; inclusivamente, entre a primeira vocação e a chamada segunda vocação, quando deixamos de ver “fantasias” e passamos a ver a realidade com mais objetividade possível. Noé passou pelo mesmo drama, entre o envio do corvo e o envio da pomba. Até que a nova terra apareça, é preciso que aconteça um “dilúvio” que lava do mal e que enche a vida de graça.
No fundo, tudo é graça! No final, a ação pastoral de Jesus é sempre um ato de restituição ao caminho que leva a casa. E não uma carreira eclesiástica. Por isso, em Igreja, e à luz da atitude de Jesus, somos chamados a promover processos de encontro e de cura ─ entre a palavra e a visão ─ e não tanto entre combates entre autorreferencialidades. Por isso, urge mais o acompanhamento personalizado (acompanhamento de consciências) do que, meramente, uma boa organização burocrática da pastoral.
Para a meditação pessoal:
─ O meu ato de crer precisa de ver milagres?
─ Que ação de Jesus sobre a minha vida posso testemunhar aos outros?
