navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 13, 46-49; Sl 116 (117), 1. 2; Ev Lc 10, 1-9, na Festa dos Santos Cirilo (monge) e Metódio (bispo). Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

A passagem anterior ao Evangelho proclamado nesta Festa mostra-nos como o seguimento de Jesus é terrivelmente duro, porque nos arranca à segurança da terra e introduz-nos num contexto de caminho que conduz até ao calvário. A consequência deste seguimento exigente é o facto de que possibilita um esforço missionário. Só aqueles que, seguindo Jesus, se desprendem dos antigos interesses e valores da terra, podem anunciar até ao fim o dom e a verdade do Reino de Deus.

Os setenta e dois discípulos enviados pelo Senhor simbolizam todos os trabalhadores da messe que Ele, também como Ressuscitado, envia em todos os recantos geográficos e em todos os tempos da história até aos confins do mundo. Neste grupo de enviados, não está tanto em causa a sua hierarquia, mas o trabalho missionário que realizam, preparando a vinda do Senhor que nos manda dizer: “Está perto de vós o reino de Deus”.

E há dois horizontes que o Senhor quer atingir, enviando estes seus “sapadores” da missão: as fronteiras geográficas ─ todo o mundo; e as fronteiras da história ─ até ao fim dos tempos. Na caminhada para Jerusalém, Jesus não está só e a missão dos seus discípulos integra-se no caminho de Jesus para o Pai.

As caraterísticas deste Reino divino são: a sua proximidade, a paz, a garantia de a Palavra vai ser ouvida, implica a partilha de bens e leva ao confronto com o mundo.

Os Santos irmãos Cirilo e Metódio, missionários na Morávia, são testemunhas do que em cada tempo poderá ser feito abrindo-se os corações aos apelos do Espírito Santo. Concretamente, como se sabe, pregaram a fé cristã criando um alfabeto próprio para traduzir para a língua eslava os livros sagrados, e prepararam os textos litúrgicos em língua eslava, com letras que depois se chamaram “cirílicas”.

Antes destes dois irmãos de sangue, também aqueles irmãos na missão Paulo e Barnabé foram fiéis criativos que proporcionaram que os gentios se alegrassem ao escutar a Palavra do Senhor, glorificando o Senhor com a expansão da fé cristã. Mas tiveram que se confrontar com os judeus, para continuarem a manter como “irmãs” a fidelidade a Deus e a criatividade na evangelização. Só com a união destas duas “irmãs” é que, como verificamos na vida de todos os Santos e Santas, é possível a expansão da fé às novas e às gerações futuras.

Parafraseando o Sr. Cónego João António Pinheiro Teixeira, para além de aplicativos no telemóvel é preciso um “aplicativo espiritual”, sublinhando que “o que ouvimos da parte do Senhor, através da proclamação da Palavra é para ‘aplicar’ integralmente na nossa vida. A homilia deverá visar sempre instalar esse ‘aplicativo’”, não bastando “abordagens genéricas”. “Urge ‘aplicar’ a Palavra escutada. Sem demoras. A evangelização urge!”

Obedecendo a esta provocação e inspirado na fraternidade dos Santos de hoje, almejo duas coisas para a formação no nosso Seminário: que a proximidade entre os formandos e os formadores seja prenúncio da proximidade entre os futuros padres e os respetivos bispos; e que não tenhamos medo de colocar todas os nossos talentos ao serviço da evangelização, com critério e a partir de uma espiritualidade profunda, alicerçada em Cristo. Neste sentido, a fidelidade e a criatividade também são duas “aplicações” da alma, aptas para o bem que o Senhor nos inspira a realizar.