navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Gn 2, 4b-9. 15-17; Sl 103 (104), 1-2a. 27-28. 29bc-30 Ev Mc 7, 14-23. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007. O itálico é das admonições da Liturgia.

Um dos temas sobre os quais Jesus instruiu a multidão foi o que dizia respeito às prescrições da pureza e da impureza no tocante à questão da libertação da lei. O ambiente da cultura judaica, igual em muitas outras religiões, da separação entre profano e sagrado, que obrigava à purificação ritual para a passagem de um para o outro. No Antigo Testamento, porém, o profano não é necessariamente anti-sagrado, mas implicava sempre um processo de purificação, para não se ser culpado de sacrilégio. O judaísmo helénico que influenciou o evangelista Marcos tendeu a espiritualizar esta questão, dando mais importância ao aspeto ético e espiritual do que ao ritual.

Este é um dos temas em que Jesus faz rutura com os próprios profetas e com a espiritualidade jucaico-helénica. Conforme o conceito de pureza ritual era proposto, não basta superá-lo, mas é preciso rejeitá-lo nas suas premissas fundamentais. Precisamente, a distinção entre uma esfera religiosa, divina, da vida e uma esfera quotidiana, que não pertencia a Deus, é totalmente rejeitada. Ao afirmar que as coisas do mundo nunca são impuras, mas que podem vir a sê-lo unicamente através do coração do homem, a comunidade de Jesus manteve a fé na bondade da criação, contra uma tendência ascética que olhava de revés para a própria criação de Deus.

Em suma, aquilo de que Jesus nos quer livrar é o automatismo da ampliação da lei, ou seja: da busca de certas zonas privilegiadas de refúgio, a lei entendida em sentido tradicional, que bastaria alcançar para se sentir imediatamente salvo. Não há apriorismos sagrados, ou seja, não basta que uma pessoa, um lugar, uma casa tenham sido consagrados a Deus, para se tornarem automaticamente sagrados e intocáveis. A única santificação possível vem a posteriori, quando o homem assume, livre e conscientemente, um comportamento conforme a vontade de Deus. Por outras palavras: não há nada sagrado ou profano, puro ou impuro em si mesmo. A criação é “secular”: pode ser profana e pode ser sagrada. Só pelo diálogo entre Deus e o homem é que algo se torna sagrado e puro.

O mandamento de Deus inscrito no Génesis ─ «Podes comer fruto de todas as árvores do jardim, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que dela comeres, terás de morrer» ─ resume o que acabamos de refletir e penso que Jesus o levou muito a sério: o ser humano pode usufruir de todos os alimentos da árvore da vida; o que não pode é substituir Deus e fugir do diálogo com Ele ou do confronto com a Sua vontade suprema. O fruto proibido é uma maneira poética de apresentar a soberania de Deus e a faculdade de decisão de que o homem deve usar para se conduzir, reconhecendo a sua situação em relação a Deus. E não há outra maneira de ele se realizar.

Com a carta encíclica Dilexit nos, o Papa Francisco ajuda-nos a contextualizar este problema, com o convite a revalorizarmos o coração:

Neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas. Movemo-nos, porém, em sociedades de consumidores em série, preocupados só com o agora e dominados pelos ritmos e ruídos da tecnologia, sem muita paciência para os processos que a interioridade exige. Na sociedade atual, o ser humano «corre o perigo de se desorientar do centro de si mesmo». «O homem contemporâneo encontra-se com frequência transtornado, dividido, quase privado de um princípio interior que crie unidade e harmonia no seu ser e no seu agir. Modelos de comportamento infelizmente bastante difundidos, exaltam a sua dimensão racional-tecnológica ou, ao contrário, a instintiva». Falta o coração. (n. 9) Ao não se dar o devido valor ao coração, desvaloriza-se também o que significa falar a partir do coração, agir com o coração, amadurecer e curar o coração. (n. 11)