navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Gn 1, 1-19; Sl 103 (104), 1-2a. 5-6. 10 e 12. 24 e 35c Ev Mc 6, 53-56, na memória de Santa Escolástica, virgem

Ao preparar a partilha para a liturgia da Palavra de hoje, fui confrontado com uma notícia que à maior parte dos olhares passa despercebida. O seu título dizia: “Adeus a Mizzi, a idosa que morava na escadaria da Traspontina“. Traspontina é uma igreja situada na Via da Conciliação, em Roma. Está confiada aos padres carmelitas. Costumava ir lá participar na lectio divina quinzenal no tempo do padre carmelita Bruno Secondin, que já partiu para o Pai.

Mizzi é uma idosa que foi encontrada sem vida devido ao frio no dia de Natal, início do Jubileu da Esperança. A igreja da Traspontina era o seu abrigo, os degraus a sua cama. O seu funeral foi presidido pelo cardeal Konrad Krajewski mesmo ali naquela que ela considerava a sua casa. Havia muitas pessoas presentes: quem a acudiu, quem a viu gritar e de repente parar para cumprimentar, quem a viu lavar roupa na fonte ou fazer algum remendo nas roupas.  Pouco se sabe sobre ela, a estrada nem sempre é uma escolha, como muitos dizem, evitando lidar com o problema, às vezes é a última fronteira do desespero.

O cardeal sublinhou que a compaixão é a linguagem de Deus, feito de proximidade, compaixão e ternura. A atitude necessária para compartilhar a vida dos mais frágeis.O esmoleiro da Santa Sé relacionou a entrada de Mizzi na vida eterna com a passagem pela Porta Santa, uma entrada simbólica para um novo começo que expressa a vontade de entrar no coração de Cristo. Um passo que Mizzi já deu com sua vida. Ela agora vive em plena comunhão com Deus. Atravessar a Porta Santa simboliza um ato de penitência e reconciliação com Deus, experimenta-se sua misericórdia, recebe-se seu abraço, alimenta-se de sua palavra para colocá-la em prática, vivendo de acordo com sua vontade. Mizzi não pode mais resolver seus problemas, mas por meio de sua vida podemos ver como mudar a nossa.

Fui investigar o cemitério de “Prima Porta” (ou de “Flaminio”), onde ela foi sepultada, e reparei que o nome dela não figura entre os mais famosos ali sepultados. O que é interessante é que ela passa a figurar na minha lista de pessoas que me ajuda a ler melhor o Evangelho e a reconhecer melhor Jesus. Ela, hoje, ajudou-me a ficar apoiado neste “degrau” da Palavra:

Quando saíram do barco, as pessoas reconheceram logo Jesus…

E a refletir nos seguintes pontos:

• À primeira vista, lemos, nesta afirmação, “as pessoas” como sendo aquelas que estavam fora e reconheceram Jesus que saíam do barco para fora com os seus discípulos. Mas não menos primeira, na linha de importância, pode ser a interpretação de “as pessoas” que saíam com Jesus do barco, reconheceram-n’O nas pessoas que estavam fora dele. Como muitos que ajudaram a Mizzi, hoje somos convidados a relacionar mais seriamente o hall das igrejas com as suas escadas, as suas naves interiores da fé com os adros exteriores da vida humana. E habituar-nos a não separar muito a presença real de Jesus na Eucaristia da sua presença não menos real nas pessoas com quem Se identifica (na vida terrena como na vida de Ressuscitado). Não separarmos, mas assemelharmos a fé celebrada da fé realizada. Nada por contraposição, mas por junção.

• Imagino que Jesus não usaria vestes diferentes dos seus discípulos, vestindo-se da forma simples como os aconselhava a andar. O que faria com que os olhos das pessoas catectassem imediatamente a pessoa de Jesus? Imagino que fosse o olhar ternurento de Jesus, com o seu coração compassivo a saltar-lhe pelo sorriso e pelas mãos. A benevolência divina sempre pronta não a condenar, mas a misericordiar. E o coração das pessoas a necessitar de ajuda material e/ou espiritual.

• Como aprendemos com o Génesis, o Deus que preside ao dia é o mesmo que preside à noite. Este livro das “Origens” quer-nos dizer que tudo na criação saiu das mãos de Deus e tudo para Ele converge através de Jesus, não por saltos impossível de alcançar, mas pela presença e proximidade d’Ele nas situações humanas mais limitadas, pela encarnação do Verbo. Neste sentido, esperançar é possível, “contra” ou “para além de toda a esperança”, como Paulo interpretou em relação a Abraão (cf. Rm 4,18), que foi justificado pela fé porque ele creu em Deus antes que a lei mosaica fosse dada a Israel e antes que ele mesmo recebesse o sinal da circuncisão como sinal da aliança. Abraão torna-se ─ como, no meu modo humilde de ver, muitos pobres de hoje à porta dos templos ─ exemplo de quem pode estar diante de Deus como “um amigo” (cf. Is 41,8) não tanto pelas suas ações justas, mas sobretudo pela confiança no Senhor. A sua fé é pura, radical, e funda-se exclusivamente na promessa de Deus (Cf. GIULIO MICHELINI, Una riflessione sulla speranza, Abramo e il Giubileo).

• Prova de que o Deus do dia também habita a noite em favor dos que foi a eficácia da oração de Santa Escolástica implorando-Lhe que o irmão São Bento passasse aquela noite para que pudessem “continuar até de manhã a falar sobre as alegrias da vida celeste” (cf. Dos diálogos de São Gregório Magno, papa). O irmão, que disse “de maneira nenhuma posso passar a noite fora da minha cela” viu rebentar-se uma grande tempestade, com tão fortes relâmpagos, trovões e aguaceiros” que nem ele nem os irmãos puderam pensar em sair do lugar onde estavam reunidos. O pedido que o irmão recusou foi-lhe concedido pelo seu Deus, de modo que já não lhe interessava que o irmão ficasse ou não. “E Bento, que não quisera ficar ali espontaneamente, teve de ficar contra vontade”, passando “toda a noite em vigília, animando-se um ao outro com santos colóquios sobre a vida espiritual”. Aquela mulher teve mais poder que o irmão, porque mais amou. A idosa Mizzi faz-me lembrar Santa Escolástica que, “liberta do corpo, em figura de pomba” deu “entrada no interior da morada celeste”. Como São Bento, somos chamados a encontrarmo-nos “num local próximo do mosteiro”, qual “barco” de onde ele, também acompanhado dos seus discípulos, saiu para ir iria ter com a sua irmã para louvar a Deus e fazer uma santa conversação. Com Jesus, somos chamados a adentrar-nos pelas “aldeias, cidades ou casais” a servir-Lhe “ao menos” de “orla do manto”, tocando e sentindo-nos tocados por um amor divino indiviso pela humanidade.

Hoje rezo ao Senhor pelas portas das nossas igrejas ou templos, para que sejam cada vez mais, não uma separação da liturgia e do quotidiano, mas portas sempre abertas para o “abraço” entre o dar e o receber, na descoberta de que quem pensa estar a dar reconheça estar a receber, e de que quem está a pedir, a maior parte das vezes está a dar sem o saber. Oremos, irmãos.