L 1 Heb 13, 15-17. 20-21; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6 Ev Mc 6, 30-34
Jesus ensina aos seus apóstolos a coroação do descanso. Coroação porque o descanso é o ponto de chegada da missão. É de Deus que Ele recebe inspiração para convidar os que O seguem para o repouso:
Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado. Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o, visto ter sido nesse dia que Ele repousou de toda a obra da criação.
─ Gn 2,2-3
É com a missão que se abençoa o descanso. O descanso coroa a missão e a missão abençoa o descanso. De modo que o descanso faz parte da missão.
O descanso é fundamental para garantirmos a intimidade com o Senhor, para garantir que o que desenvolvemos na missão decorre da relação com Ele, para a imitação do que Ele faz. O descanso é necessário para, como os apóstolos, irmos dizer a Jesus o bem que nos nós Ele realizou. É necessário o descanso para avaliar as obras feitas e para louvar o Senhor por nos fazer úteis para o seu Reino.
Acontece com os servidores de Jesus o que aconteceu com Ele e os seus apóstolos: depois de um episódio de missão extenuante, querendo descansar de trabalhos realizados, logo alguém bate à porta a pedir ajuda. Ou numa tentativa de programação de um dia ou tempo tranquilo para recobrar as forças de uma atividade extenuante ou para preparar outra que venha a seguir, logo aparecem trabalhos não planeados que exigem atenção. Costumo dizer, a este respeito, que a partir da quaresma de cada ano pastoral, já não somos nós que mandamos na agenda, mas é a agenda que manda em nós.
Um segredo para dar um salto de qualidade que não nos desanime é ter a compaixão no coração em relação às necessidades dos outros. Significa que o descanso não deve ser tido como uma fuga do tempo não livre. Também não seria verdadeiro tempo livre. Este, para ser verdadeiramente livre, só pode ajudar-nos a requalificar a nossa forma de amar. Nesta perspetiva, o descanso é uma obrigação ou dever de quem precisa de aprender a amar mais e melhor. Quem serve sem descansar, mais tarde ou mais cedo corre o risco de já não saber desde que fonte ama. E o ativismo não é bom conselheiro. A certa altura, o Salvador é substituído por salvadores presunçosos que, mais à frente, tenderão a fazer-se pagar pelos méritos do trabalho feito.
Descansar ajuda a que não sejamos apóstolos ou discípulos de nós mesmos nem para nós mesmos. O sacrifício de louvor é o que permite crescer em nós a sensibilidade para viver num estilo de solidariedade e beneficência contínuos. Este estilo não impede que, quando o corpo pesa à consciência, de forma discreta se tirem momentos do dia, da semana ou do mês para paragens de solitude, na intimidade com Deus. Para recalibrar as forças, para olhar a realidade que nos circunda, para acender a compaixão no coração. E dali partir para a vida comunitária como “hospital de campanha”.
Muitos textos do Evangelho mostram-nos que Jesus está atento às pessoas, às suas preocupações, ao seu sofrimento. Por exemplo: «Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida» (Mt 9, 36).
O Evangelho de hoje mostra-nos como a viagem e a pousada do descanso são lugares de atenção sobre a movimentação de quem tem sede e procura salvação. É por isso que o descanso não é só necessário para recalibrar as forças físicas do trabalho realizado, mas também para requalificar a oferta de vida no que bem a seguir.
Neste Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas, invocamos Santa Josefina Bakhita e São Jerónimo Emiliano. Ela que foi escrava e ele que cuidou dos pobres e dos órfãos que viviam na miséria. Que por sua intercessão possamos partir sempre do amor infinito de Deus para ajudarmos os nossos irmãos a livrar-se de todo o tipo das misérias que roubam a dignidade humana.
