navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 53, 1-10; Sl 21 (22), 7-8. 15. 17-18a. 22-23 Ev Jo 19, 28-37 ou Jo 20, 24-29, na Festa das Cinco Chagas do Senhor

Era uma vez um maravilhoso jardim, bem situado no centro de um campo.  O dono costumava passear ao sol do meio dia… Um esbelto bambu era, para ele, a mais bela e estimada de todas as árvores e plantas do seu jardim. Este bambu crescia e tornava-se cada vez mais lindo. Um dia, o dono, pensativo, aproximou-se do seu amado bambu:

— “Querido bambu, eu preciso de ti”.

O bambu respondeu:

— “Senhor, estou pronto, faz de mim o uso que quiseres”.

O bambu estava feliz, parecia ter chegado a grande hora da sua vida: o seu dono precisava dele e ele iria servi-lo.

Com voz grave, o senhor disse:

— “Bambu, só  poderei usar-te, se eu te podar.”

— “Podar? Podar-me, senhor?! Por favor não faças isso. Deixa-me a minha bela figura. Tu vês como todos me admiram”.

 “Meu amado bambu” — A voz do senhor tornou-se mais grave ainda — “não importa que te admirem ou não. Se eu não te podar, não poderei usar-te”.

No jardim, tudo ficou silencioso… O vento segurou a respiração… Finalmente, o lindo bambu inclinou-se e sussurrou:

— “Se for assim, podes podar-me…”

O senhor continuou a falar:

— “Meu querido bambu, devo também cortar as tuas folhas…”.

O sol escondeu-se atrás das nuvens… Umas borboletas afastaram-se assustadas… Disse o senhor novamente:

— “Ainda não basta, meu querido bambu: devo também cortar-te pelo meio e tomar-te o coração. Se não faço isto, não poderei usar-te.”

—  “Por favor, senhor” — disse o bambu — “eu não poderei mais viver. Como poderia viver sem o coração?”

— “Devo tirar-te o coração. Caso contrário, não poderei usar-te”.

Houve um silêncio… Alguns soluços de lágrimas abafadas…

Depois, o bambu inclinou-se até ao chão e disse:

— “Senhor, poda, corta, parte, divide, toma por inteiro”.

O senhor desfolhou, decepou, partiu-o e tirou-lhe o coração.

Depois, levou-o para o meio de um campo ressequido, a uma fonte de onde brotava água fresca. Lá, o senhor deitou cuidadosamente o seu querido bambu no chão, ligou uma das extremidades do tronco decepado à fonte, e levou a outra até ao campo. A fonte cantou boas-vindas ao bambu decepado. As águas cristalinas precipitaram-se alegres pelo corpo despedaçado do bambu. Correram sobre os campos ressequidos que por elas tanto haviam suplicado. Ali plantou-se trigo, arroz, milho, feijão. Os dias passaram-se e a sementeira brotou, cresceu e tudo ficou verde. Veio o tempo da colheita.

Assim, o tão maravilhoso bambu de outrora, no seu despojamento, no seu aniquilamento e humildade, transformou-se numa grande bênção para toda a região.

Quando ele era grande e belo, crescia somente para si e alegrava-se com a sua própria beleza. No seu despojamento e aniquilamento, na sua entrega, ele tornou-se o canal do qual o senhor se serviu para tornar fecundas as suas terras. Muitos, muitos homens e mulheres encontraram a vida e viveram deste tronco de um bambu podado, cortado, decepado e partido.


Na bandeira portuguesa, as 5 quinas simbolizam os 5 reis mouros que D. Afonso Henriques venceu na batalha de Ourique. E os pontos dentro das quinas representam as 5 chagas de Cristo. Diz-se que na batalha de Ourique, Jesus Cristo crucificado apareceu a D. Afonso Henriques, e disse: “Com este sinal, vencerás!”.

Também hoje em dia, com a inspiração do Papa Francisco, vemos diante de nós alguns “mouros” que somos chamados a combater. Evoco só 5 chagas atuais onde eles precisam de ser evangelizados: a guerra, o descarte da vida humana, a indiferença a migrantes e refugiados, a falta de comunhão ou de sinodalidade, a corrupção que gera pobreza. A vitória está na imitação de Cristo.

A nossa vida e vocação não pode ficar pela evocação de símbolos, mas pela incarnação das atitudes de Cristo diante dos males deste mundo, para que este seja irrigado com a vida em Cristo.

Como o bambu, os que se prostram no chão antes de receber o Sacramento da Ordem ou para fazer votos perpétuos de consagração estão dispostos a deixar-se trabalhar pelo Senhor Deus de modo o ser colocados ao seu serviço nas terras áridas da existência humana.