navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Heb 12, 1-4; Sl 21 (22), 26b-27. 28. 30. 31-32 Ev Mc 5, 21-43, na memória de São João de Brito, presbítero e mártir

O entrelaçamento dos episódios no Evangelho de hoje mostram-nos Jesus a demonstrar como o sofrimento e a morte não são circunstâncias ou fins absolutos. Há resoluções e paragens que só pela fé podem ser alcançadas. Por isso, o texto de hoje não são sobre a ressurreição corporal, uma vez que isso nos iria levar a um racionalismo teológico infindável. Os cálculos matemáticos ou rigoristas demonstram uma fé débil. Como débil é uma fé meramente fundamentada em apologética. O “como” e o “quando” da ressurreição são para Deus decidir.

Vejamos a postura das personagens do Evangelho:

1) Os suplicantes de hoje, como no Evangelho de hoje, estão numa situação de debilidade pessoal ou de alguém ao seu cuidado (como é o caso de Jairo) e prostram-se diante de Jesus ou tocam n’Ele (como é o caso da mulher com fluxo de sangue). Mostram-nos que a fé lança a ponte da humildade na relação com Aquele em quem se coloca o último reduto de confiança (para além dos cuidados pessoais e da medicina).

2) Jesus, como verdadeiro mediador, tem a certeza na força de Deus, mas, ao mesmo tempo, “acredita” no poder da fé daquela gente. Privilegia o encontro pessoal, o mais discreto e tocante possível. Ele sabe que os recursos das pessoas em fragilidade são muito importantes para se poder acolher de Deus o que Lhe aprouver realizar. Diante das circunstâncias Ele não age como super-homem, mas faz perguntas e dá conselhos triviais: “Quem Me tocou?” e “Lavanta-te” e “dai de comer à menina”. Interage e pede interação.

3) Os discípulos questionam o Mestre quanto à atitude aparentemente banal de Jesus (“Vês a multidão que Te aperta e perguntas…?”).

4) Os da casa do chefe da sinagoga que, ora sugerem que não importune mais o Mestre por não acreditarem na cura, ora choram com muito alarido por causa do mal aparentemente intransponível, ora se riem diante das suas explicações.

Os Papas Francisco e Bento XVI deixam-nos provocações muito belas a respeito deste Evangelho:

Para ter acesso ao seu coração, ao coração de Jesus, só existe um requisito: sentir-se necessidade de cura e confiar-se a Ele. Eu pergunto-vos: cada um de vós sente-se necessitado de cura?

─ Francisco, Ângelus (1/7/2018)

Um homem aberto à presença de Deus dá-se conta que Deus opera sempre e que também atua hoje; por isso devemos deixá-l’O entrar e facilitar-Lhe que atue em nós. É assim que nascem as coisas que abrem o futuro e renovam a humanidade.

─ Joseph Ratzinger, Deixemos que Deus faça maravilhas (Suplemento de L’Osservatore Romano, 06/10/2002)

O que considero interessante na pessoa e na vida de São João de Brito é que ele, tendo sido uma pessoa delicada e singela, foi capaz de se doar até ao martírio pela causa da propagação do Evangelho. Neste exemplo vemos que há muita força na fragilidade, não só como húmus onde Deus quer manifestar a sua glória, mas também como veículo de testemunho da força do Evangelho.

Hoje comemora-se o Dia Internacional da Fraternidade Humana. E seis anos após a assinatura do documento em Abu Dhabi (sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum), entre o Papa Francisco e Ahmad Al-Tayyeb (a 4/2/2019), o «Mundo está num caminho preocupante». Esta afirmação é de Rita Reino, da Rede Cuidar da Casa Comum na Paróquia de Santa Isabel, em Lisboa, questionando: “Nós cristãos, que somos tantos pelo mundo fora, como é que não nos conseguimos unir e fazer pressão a nível político para que estas guerras acabem e para que a fraternidade exista?”. A nível dos governos e da sociedade civil, espanta que haja pouca vontade em colocar fim aos conflitos, apontando-se os jogos económicos e políticos como as causas da indiferença e inércia. A este respeito, está a ser organizado um Encontro da Fraternidade que vai promover a escuta dos imigrantes. “Porque deixaram a sua terra? Como vieram? Que encontraram em Portugal? Que querem desta terra? Que medos e esperanças transportam?” A estas questões, também nós, a partir da liturgia de hoje, podemos perguntar: não é Jesus Cristo, Ele mesmo, um Irmão de todos que veio de longe para nos ajudar a entender e a viver o que é a fraternidade universal? Como agiria Ele hoje diante da humanidade afligida por vários tipos de mal? Estes e outros episódios entrelaçados do Evangelho vão sendo a resposta a estas nossas perguntas crentes (em Deus e na humanidade), necessitando do entrelaçamento com as nossas ações de bem-fazer.