navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Heb 10, 1-10; Sl 39 (40), 2 e 4ab. 7-8a. 10-11 Ev Mc 3, 31-35, na memória de S. Tomás de Aquino, presbítero e doutor da Igreja

Tomás de Aquino cresceu desde criança com os monges beneditinos, de modo reza uma história que ele, um dia, puxa a manga de um dos monges para lhe perguntar “Quem é Deus?”, ao que não obteve resposta. Puxou a manga de outro monge que lhe respondeu que não importava entender, que bastaria ter fé, ao que Tomás retorquiu: “Justamente porque tenho fé quero saber mais, quero entender!” Este é cá dos meus ─ reagiu o monge. Assim, e porque pertencia a uma família nobre, foi enviado ainda muito cedo para a universidade estudar as ciências daquele tempo.

Frequentemente, quando falamos de nova evangelização referimo-nos quase sempre a novos métodos e à frescura da linguagem que atualize a mensagem cristã, para uma maior obtenção de frutos pastorais. A Evangelização está chamada, como referiu João Paulo II, a ser nova no seu ardor, nos seus métodos, novas nas suas expressões:

A novidade está em que o Evangelho tem de se apresentar como mensagem salvadora para cada geração. E para ser mensagem salvadora, deve responder aos desafios de cada geração. A nova evangelização pretende ser um novo anúncio da Boa Nova no contexto sócio-religioso do mundo atual. A evangelização é ainda nova, porque o mundo, a cultura e o homem a quem se dirige têm uma visão das coisas, uma atitude ante Deus e os demais que são novas. A evangelização é nova também, porque põe o acento na evangelização dos pobres, na cultura da solidariedade e na civilização do amor. É nova ainda porque respeita as culturas e dá prioridade à inculturação. Assim, em síntese, as características da nova evangelização são a iniciação vivencial e a prática da experiência cristã; a evangelização deve ser testemunhal; uma evangelização inculturada; uma evangelização comprometida com o humano.

No Evangelho de hoje, aprendemos que o parentesco espiritual que une os crentes em Jesus Cristo é mais profundo do que os laços de sangue. Por isso, para novas gerações requer-se evangelização nova. Esta decorre da comunhão com a vontade de Deus. A questão dos laços familiares é uma questão difícil: quem de nós se veria facilmente a desvalorizar os laços de sangue em relação aos laços do Batismo? Acredito que há famílias cristãs que não levariam a mal, mas há famílias “cristãs” que se sentiriam desonradas se no gráfico de importância as colocássemos após a consideração dos laços “de água e do fogo” batismais. Por vezes, penso no constrangimento que Jesus deve ter tido ao ter que colocar a sua família “de sangue” em segundo plano, em relação à nova família dos que escutam a sua Palavra e fazem a vontade de Deus.

Todos somos chamados a entrar na comunhão espiritual da família do Senhor. A caraterística que une os seres humanos na família de Deus não é uma classe de pessoas, uma oligarquia ou grupo especial, mas somente aqueles aceitam uma condição ou estilo de vida: “Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe”. Portanto, como nos lembra o Papa Francisco, Jesus formou uma nova família não baseada nos vínculos de sangue, mas na fé n’Ele, no seu amor que nos acolhe e une, no Espírito Santo. Todos aqueles que acolherem a palavra de Jesus são filhos de Deus e irmãos entre si. Para alguns foi um drama entender isto, mas para Maria foi um reconhecimento, porque discípula perfeita que obedeceu em tudo à vontade de Deus, Ela que hoje nos ajuda a viver sempre em comunhão com Jesus, reconhecendo a obra do Espírito Santo que age n’Ele e na Igreja, regenerando o mundo para a vida nova (Angelus de 10/6/2018).

A teologia de hoje lança uma tarefa para a pastoral familiar: não basta fazer pastoral comunitária. Aquilo que o padre pensa ou projeta ser uma evangelização atualizada a partir das homilias dominicais e a catequese paroquial (que é maioritariamente de infância e de adolescência), por vezes, fica prejudicada pela cultura da família, por vezes contraditória à verdade ensinada, como aconteceu com a família “alargada” de Jesus que, temendo os escribas, vieram tentar afastá-lo do que estava a acontecer.

Se não tivermos cuidado, também os respeitos humanos nos tentam afastar daquela profecia que faz parte do projeto de Jesus. Não foi à toa que Jesus disse que “nenhum profeta é bem recebido na sua terra”. Quantos sacrifícios ou práticas antigas se continuam a propor como sacrifícios ou práticas alternativas à nova evangelização pedida pela vontade de Deus. Não foi à toa que para a definição do novo sacerdócio de Cristo o autor da carta aos hebreus tenha colocado na boca de Jesus o salmo 39: “Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade”. O erro está, por vezes, em definir-se como vontade de Deus alguns preceitos humanos.

Conta-se, também sobre São Tomás, que no fim da sua vida um frei o viu a rezar diante do crucifixo, ouvindo-se sair dele uma voz que dizia “Tomás, escreveste bem sobre mim. Que queres receber de mim como recompensa pelo teu trabalho?” De joelhos, S. Tomás responde em seu ardor místico: ‘Senhor, nada senão Vós!’”. É para aí que deve tender o nosso estudo: não para os livros ou os meros conteúdos (estão são só pontos de partida e não um fim em si mesmo), mas para Jesus Cristo. Ajuda-nos a entender a “loucura” de Cristo a teologia de Tomás de Aquino no que se refere à Cruz do Senhor. É imitando-O na sua paixão e na cruz que aprendemos a rejeitar o que Ele rejeitou e a desejar o que Ele desejou, aprendendo a suportar com grande serenidade os sofrimentos, para que possamos como Ele desprezar as honras da terra, tendo em vista só as coisas de Deus.