navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ne 8, 2-4a. 5-6. 8-10; Sl 18 B (19), 8. 9. 10. 15; L 2 1Cor 12, 12-30 ou 1Cor 12, 12-14. 27; Ev Lc 1, 1-4: 4, 14-21, no 3º Domingo do Tempo Comum (C) e VI Domingo da Palavra de Deus, na Eucaristia de encerramento do XVIII Encontro de Animadores da Pastoral Vocacional

Caríssimos irmãos e irmãs, também nós estamos aqui hoje para colocar o nosso olhar em Jesus, Palavra viva que se diz e se senta connosco para nos ajudar a encontrar o sentido da vida e da vocação.

Temos a alegria de culminar este nosso encontro no Domingo da Palavra de Deus, dentro do Jubileu da esperança. Com o refrão “Eu espero na tua Palavra“, do Salmo 119, o Santo Padre chama-nos a considerarmos aquele grito de esperança que o ser humano faz o homem no momento da angústia, da tribulação, da falta de sentido, clama a Deus e põe nele toda a sua esperança. E, como se aclama neste Jubileu, a esperança no Senhor é uma esperança que não desilude.

E a fonte de esperança que não desilude é a Palavra de Deus. E porque é a Palavra de Deus? E como é a Palavra de deus? O que é que permite a quem escuta esta palavra reconhecer que a Ele que a pronuncia se pode abandonar com toda a confiança? Isto é possível se a palavra do Senhor chega ao coração não como promessa de algo, mas como promessa de alguém, e de alguém que ama a nossa vida com um amor omnipotente, que pode tudo por aqueles que ama e se confiam a Ele.

Foi este sentimento das primeiras pessoas que acolheram a Palavra de Deus no meio delas como é descrito no Livro de Esdras, de forma ritual. Acolheram-na não como palavra morta, mas como se de uma Pessoa se tratasse. É o Senhor que está convosco! Ide para casa e fazei uma festa!

Foi esta mesma alegria daqueles que tinham os olhos postos em Jesus quando O viram proclamar a Palavra na sua própria terra. E, sentando-Se, fez a homilia mais curta da história (o Papa Francisco ainda não se lembrou de pedir aos padres uma homilia de uma só frase…). Uma homilia improvável. “Cumpriu-se hoje mesmo esta Palavra da escritura que acabais de ouvir”. Sabemos o que isto significa, certo? Jesus não era só um nazareno, era a somatização da Palavra escutada: com a força do Espírito Ele era anúncio de boa nova aos pobres, a redenção aos cativos, a vista aos cegos, a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor. Talvez as homilias mais curtas, mas acertadas, para além da admiração de alguns acarretem, como aconteceu com Jesus o desprezo dos seus conterrâneos e, até, a morte. Porque são homilias que vão diretas ao assunto. Os italinos dizem “tra il dire e il fare c’è di mezzo il mare” (entre o dizer e o fazer está o mar no meio, quer dizer: uma coisa é dizer, outra coisa é fazer). As palavras humanas mais úteis são as que encurtam a distancia entre a Palavra de Deus e a ação do bem. Como o pedido do centurião romano “senhor eu não sou digno…” Ou de Pedro “senhor, a quem iremos…”. Eficazes, entre a situação humana e a ação benevolente de Jesus. Os nossos carismas foram e são isso: Princípios ativos da palavra de Deus. E quando os nossos carismas já não estão a ser princípios ativos, é preciso redundar os carismas, à luz do mesmo Espírito.

É costume dizermos sobre o cânone bíblico que tudo o que poderia ser dito por Deus já está ali escrito. Mas também podemos dizer que ainda não está tudo cumprido. Jesus veio completar. Mas não veio completar só há dois mil anos. Hoje está para completar com o seu Espírito Santo. E é na medida que nos relacionamos com Ele, Palavra viva, que Ele completa na nossa vida o que foi transmitido de geração em geração e que no hoje da nossa história nos é anunciado.

Paulo percebeu-o muito bem, após ter caído abaixo de si próprio (o cavalo desgovernado era ele mesmo!), quando falava da comunidade como um corpo. E falou de tal modo que considero esta leitura como uma síntese poética de todo este nosso encontro. Paulo convida-nos a dar uma alta consideração aos membros mais desprezados e a não descartar nenhum, uma vez que são todos precisos. Traduzindo pela gramática da vocação: todas as pessoas têm uma vocação que é o seu caminho para ser feliz, o caminho para uma vida bem conseguida, caminho esse que é possível com as bem-aventuranças vividas e propostas por Jesus.

Um antigo conto judaico diz «Vira e revira a Palavra de Deus, porque nela está tudo. Contempla-a, envelhece e consome-te nela. Não te afastes dela, porque não há coisa melhor do que ela» (cf. D. António Couto, Mesa de palavras). Depois de termos recebido testemunhos sobre lugares improváveis e de vocações improváveis, somos convidados a colocar todos os nossos anseios por fazer melhor na aproximação às pessoas (em especial os jovens), no acolhimento e no acompanhamento, colocando-os dentro de uma centrifugadora juntamente com a Palavra de Deus. Bem mexido, o que irá sair dali não será fragmentação, polarização, colonização, autopreservação, tendências de uma sociedade e, por vezes, Igreja divididas. (Nem sempre a inculturação da fé significou a evangelização das culturas). Pelo contrário, a Igreja é uma casa onde a unidade integra e convive bem com as diferenças integradas como dons, necessários à comunhão, participação e missão.

Que se saiba, honestamente, o fundamentalismo não tem lugar na bíblia. E o que do seu estudo sério aprendemos é que a sua escuta é plural, com histórias plurais, a maior parte delas improváveis. Nela gerou-se um povo sem terra. Se nos agarramos a fundamentalismos, agarramo-nos à terra. Se colocamos como fundamento tudo o que fazemos o o amor, ele vai transportar-nos todos juntos para um horizonte infinito que tudo e a todos integra.

O modelo vocacional que nos pode ajudar a aproveitar a positividade da história e a fugir às suas falsidades, é o modelo de integração, notoriamente fruto entre uma perspetiva teológica em diálogo com as ciências humanas, e que, na perspetiva da antropologia da vocação cristã, nos transporta no plano da redenção como integração cujo processo podemos definir como a capacidade de «construir e reconstruir, compor e recompor, a própria vida e o próprio eu à volta de um centro vital e significativo, fonte de luz e de calor, no qual encontrar a própria identidade e verdade, e a possibilidade de dar sentido e cumprimento a cada fragmento da própria história e da própria pessoa, ao bem como ao mal, ao passado como ao presente, num movimento constante centrípeto de atração progressiva. Tal centro, para o crente, é o mistério pascal, a cruz do Filho que, elevado da terra, atrairá a si todas as coisas (cf. Jo 12,32)». Cf. A. CENCINI, L’Álbero della Vita – Verso un modello di formazione iniziale e permanente, San Paolo, Cinisello Balsamo (Milano) 2005, 17-124.