L 1 Heb 6, 10-20; Sl 110 (111), 1-2. 4-5. 9 e 10c Ev Mc 2, 23-28, na memória da virgem e mártir Santa Inês
Está claro que não foi fácil a relação entre a continuidade e a novidade, que por vezes implicou a descontinuidade, da mesma revelação divina entre o Antigo e o Novo Testamentos. A lei do sábado e do descanso previsto no Antigo Testamento encontram a sua plenitude em Jesus. É n’Ele que repousamos em Deus. Caminhamos para o Dia definitivo, que completa o sábado, hoje para nós representado no Domingo, que o Senhor fez com a sua morte e ressurreição!
Conforme nos sugere o autor da Carta aos Hebreus, o lugar onde a nossa alma é chamada a colocar a âncora é a “esperança proposta”, que nasce da fé, como a de Abraão a quem o Senhor Deus disse: «Eu te cumularei de bênçãos e multiplicarei a tua posteridade». E Deus é capaz até de fazer um juramento, para que o homem, em momentos de provação, não se deixe cair na apatia e no desespero. A esperança é uma “âncora” que nos garante uma segurança inabalável.
O que mais me surpreende no martírio de Santa Inês, digo-o inspirado em Santo Ambrósio, são os sacrifícios realizados a partir da integridade. Ela, hoje, ajuda-me a pensar em cristãos leigos, diáconos, presbíteros, bispos, religiosos/as, etc., da Igreja Católica e de outras confissões de fé cristã, que a partir da sua fé madura não se deixam prender por polarizações, não se deixam levar por fake news e centram-se Aquele que é verdadeiramente a causa da nossa salvação, quer a partir do essencial, sem adornos desnecessários, mas com gestos fortes.
No seu tratando sobre as virgens, Santo Ambrósio declara Inês “ainda não apta para o sofrimento e já madura para a vitória”. Isto quererá dizer que a sua esperança está ancorada em Jesus Cristo e não nas suas próprias capacidades. A vitória é-lhe dada por Aquele em quem pôs totalmente a sua esperança.
À primeira vista, a coragem de quem caminha para o martírio parece contradizer-se com a defesa da vida humana. Porém, há um pormenor interessante escondido na Carta aos Hebreus que nos pode ajudar a desfazer esta contradição: é a alma que é chamada a ancorar-se na esperança de um futuro prometido primeiramente que o corpo. Portanto, se a dignidade do corpo humano está acima das leis, por sua vez a dignidade da alma está acima do corpo, cujas leis são chamadas a estar ao serviço daquela centelha divina presente em cada ser humano. Não era à toa que Séneca dizia: “a deformidade do corpo não afeia uma bela alma, mas a formosura da alma reflete-se no corpo”. É clara esta verdade na pessoa da virgem e mártir Santa Inês. O que embeleza a alma e se reflete na forma como se vive na corporeidade, é a verdade que está em Deus e que é Deus, que Se dignou encarnar na nossa humanidade e inabitar em cada ser humano criado.
Ora, celebremos a liturgia como oferta viva dos nossos corpos, e animemos a vida inteira com uma alma santa.
