navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Heb 5, 1-10; Sl 109 (110), 1. 2. 3. 4 Ev Mc 2, 18-22, na memória do mártir São Sebastião. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Um tema dramático que de vez em quando vem à baila na meditação subsequente à proclamação da Palavra é o da relação entre o velho e o novo. E não é só a passagem do homem velho e para o homem novo que está no âmago da mensagem de Jesus sobre o anúncio do Reino e do convite à conversão. Também fazem parte deste anúncio e convite à passagem entre um culto antigo e o culto novo, da qual depende a conversão para o homem novo.

Como é que se pode ser um homem novo com um culto antigo? Por isso, a um Mestre novo e definitivo, os que começaram a frequentar Jesus foram envolvidos (sobre)naturalmente numa nova relação, que hoje se chama de discípulos-missionários. A presença de Jesus no meio dos seus discípulos era uma coisa totalmente nova a respeito das profecias antigas. Representava o cumprimento das promessas de Deus como nunca tinha sido contemplado antes.

Doravante, o cumprimento de ritos que não leve a uma nova relação precisa de ser revisto, quanto à sua oportunidade e conteúdo. Foi o que Jesus deixou patente naquele debate com os discípulos de João Batista e os fariseus. O que Jesus lhes ensina é que, doravante, para um caminho de discipulado novo não bastam meros exercícios ascéticos, mas um compromisso total com o seu projeto salvífico.

Todo o ritualismo fixa a atitude religiosa no homem, como se este fosse o princípio e o fim do projeto. O Evangelho livra o homem da possibilidade de planificar a sua própria salvação. É Deus quem tem a iniciativa absoluta. Jesus não deixa de ter simpatia para com as práticas antigas, mas também não quer enganar ninguém. Por isso, não quer colocar um remendo do tecido novo da relação com os seus no pano velho daquelas iniciativas religiosas antigas. Nem sequer quer deixar o vinho novo do Evangelho nos obres velhos das instituições judaicas, de forma que daria cabo de ambos. As experiências devem ser respeitadas como diversas e em etapas de uma evolução mais vasta.

O que aqui aprendemos hoje é o salto de qualidade que o relacionamento com o Deus encarnado não só permite, mas exige. Na Igreja, por vezes, pensa-se que se renova algo limpando o rosto de velhas práticas. As mudanças precisam de ser feitas, por um lado, com o máximo respeito para com tradições antigas e, por outro, de atitudes verdadeiramente revolucionárias. O próprio ecumenismo implica esta relação entre respeito e revolução. Eu diria, também, a sinodalidade da Igreja.

Acontece com as tradições religiosas e o cristianismo o que se passa com o matrimónio. Segundo o psicólogo russo Boris Cirulnick (Psicoterapia de Deus, 2019), acontecem no mundo dois tipos de uniões matrimoniais: por vinculação ou por revolução. As de vinculação são as que os noivos, tendo menos liberdade de escolha, vinculam classes ou tipos de famílias, modelo que, por vezes, leva a problemas de homologação psicologicamente danosa. Os matrimónios revolucionários são os que juntam numa nova família pessoas de famílias muito distantes, não só geográfica, mas também de possibilidades económicas e níveis culturais diferentes. É destas uniões que, por vezes, se dá um salto grande de evolução civilizacional, uma vez que a união das diferenças é promotora de qualidade psicológica. O autor sugere que haja, na sociedade, um equilíbrio entre estes dois modelos, não gostando que algum deles represente uma minoria (o que seria mau em termos de sanidade mental, no primeiro caso, ou de anarquia, no segundo).

No que toca à vocação presbiteral daqueles que querem dedicar a sua vida a ser mediadores do Sacerdócio novo de Jesus Cristo ─ e não de outro profeta ou tradição qualquer ─ o Santo Padre, no encontro com os seminaristas da diocese de Córdoba, deixa três sinais de esperança:

1º ─ A direção é para o céu, para o encontro definitivo com Jesus. Não para as primeiras posições, não para os lugares mais cómodos, esses são becos sem saída e, se tivermos a infelicidade de entrar neles, temos de recuar com dificuldade e vergonha.

2º ─ Nos perigos do caminho… como aquela criança santa, no meio da dor da guerra, da crueldade mais indigna dos seres humanos, armados com o capacete da esperança, podeis dar testemunho, podeis perseverar no caminho do Senhor, convencidos de que Jesus vos sustentará sempre e nos dará também a força de sermos semeadores de esperança.

3º ─ As zonas de descanso ─ o caminho de peregrinação a Roma, a Porta Santa e os túmulos dos apóstolos ─ existe a necessidade de sermos sustentados, de sentir a presença daquele que é a única esperança, Jesus, que se apresenta como Mestre, como Senhor.

Seres semeadores da esperança é sermos cireneus no caminho, em comunidade, como foi São Sebastião não só grande no seu testemunho de martírio, mas também no apoio que ele dava incansavelmente aos seus irmãos perseguidos para não desistirem de confessar a fé cristã no meio de tribulações.

Hoje rezo pela Igreja, para que seja cada vez mais e melhor espaço de diálogo ecuménico, para que, à luz da relação com o seu Esposo Jesus Cristo, avance sem medo para a etapa “pastoral da graça”, e não fique somente nas etapas das pastorais “do dever” e do “empenho” humano.