navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Heb 4, 1-5. 11; Sl 77 (78), 3 e 4bc. 6c-7. 8 Ev Mc 2, 1-12

Era um problema que Jesus tinha de resolver: aquela ideologia que professava que as doenças eram fruto direto de problemas morais, como castigo de Deus, ideologia essa que fazia dos escribas um tribunal das causas perdidas entre Deus e os homens, uma sucursal controladora das forças desconhecidas do divino. Por isso, diante da fé daquela gente que escutava a sua palavra pregada, Jesus comprovou que o seu poder espiritual de perdoar os pecados estava unido ao poder de realizar curas físicas, tendo em vista o seu projeto de salvar integralmente o Homem.

Talvez esteja neste episódio implícita uma ironia: os escribas diziam que o mal físico era devido aos pecados dos homens, mas não concebiam que Alguém, com letra maiúscula e à face da terra, pudesse perdoar os pecados, as presumidas causas da doença para os escribas. Segundo estes, enquanto durasse uma doença teria de durar o peso da culpa moral. O que poderia ser uma vida inteira, no caso de uma doença incurável.

Explicado de outro modo: vendo Jesus perdoar os pecados daquele homem, os escribas pensariam para com os seus “botões de purpurina” que aquele homem iria permanecer paralítico sem a causa ─ o pecado ─ que eles atribuíam como origem da mesma doença. Onde iriam forjar outra explicação para argumentar a favor da sua ideologia?

É aqui que entra a “fácil” (para Deus!) novidade de Jesus Cristo, como se dissesse: curo o paralítico e já vedes que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O que Me importa é libertar o ser humano de todos os males que o oprimem, indiscriminadamente e sem calculismos. Aqui e agora! Com Jesus cessa o tribunal injusto dos homens a (pre)juízo ou (des)respeito do que une cada pessoa a Deus.

É assim a pregação de Jesus que neste episódio aparece comprovada na prática: provoca uma participação imersiva dos ouvintes numa união com o Deus libertador, sentindo que todas as dimensões humanas são passíveis de cuidado e redenção. São a “obediência” e o “repouso” referidos na carta aos hebreus: “obediência” a este poder de cura total a que somos chamados como criaturas e filhos, o “repouso” de nos sentirmos gratuitamente reintegrados por Ele no seu caminho de paz e de glória. Oxalá este Jubileu da Esperança possa servir para tornar isto patente na vida de muitas pessoas!

Estou a imaginar o paralítico a sentir-se repousado às palavras do perdão gratuito de Jesus, para o qual não precisou de declarar senão a sua fé; e a obedecer prontamente, já perdoado, à tarefa física de se levantar, de pegar na sua enxerga e de ir para sua casa, ou seja, de viver livre de empecilhos físicos e ideológicos. Contemplo neste facto uma semelhança com o sacramento da reconciliação: o perdão dos pecados é gratuito, não obstante o esforço da conversão e do arrependimento, mas implica sempre uma satisfação/restituição, que pode ser, sugestivamente, a vida contida num gesto de misericórdia corporal ou espiritual. “Vai para tua casa” pode sugerir isso: vai reconciliar-te também com a necessidade dos teus, que precisam da tua companhia.

O que permitiu que Antão do Egito fosse um modelo de superação do jovem rico foi a união da libertação dos bens materiais à não preocupação com o dia de amanhã. Ou seja, o convite a deixar os bens materiais é o mesmo à confiança na providência de Deus. Só nesta união é que é possível viver com o sustento dos “canais da providência divina” (que lhe deitavam alimentos por de cima do muro criado à volta do primeiro cenóbio ainda rudimentar) e ser para os outros canal da graça de Deus. Aconteceu com os primeiros irmãos a juntar-se a Antão no deserto aquilo que aconteceu com o ex-presidente do Uruguay, José “Pepe” Mujica, que escreveu a uma amigo, o Padre Ángel, em momentos de doença grave, para lhe agradecer e o recordar que ele lhe tinha aberto a porta da sua comunidade para poder que um punhado de sonhadores se encontrasse com a vida. Partilha-se aqui a comovedora carta:

Querido Ángel: La vida me dio el premio de conocerte junto a tus hermanos Mensajeros. Algunas veces me ataca la nostalgia de aquella coyuntura tan difícil cuando tu con los hermanos abriste la puerta de tu comunidad para poder que un puñado de soñadores se encontrase con la vida. Pasaron décadas, y tu seguiste sembrando con tu fe la eclética condición humana, seguiste andando sin fronteras en la siembra de esperanza. Con mi credo, recuerda, que mi corazón te aguarda en algún lugar de la existencia. Te mando un abrazo y los saludos de mi compañera Lucía.  José “Pepe” Mujica

De manhã, nas Laudes, cantávamos com Isaías 45, 15-25: «Eu sou o Senhor e não há outro. Não tenho falado em segredo ou em lugar tenebroso. Não disse aos filhos de Jacob: ‘Procurai-Me em lugar deserto’». Durante o dia e, em especial, na Eucaristia, comemoramos Santo Antão, que foi para o deserto. De forma teimosa, desafiando o Senhor Deus, ele foi destapar o “tecto” do deserto, descobrindo-lhe as valências que o poderiam ajudar a recomeçar uma nova aventura que haveria de levar muitos a entregar-se a uma vida de radicalidade evangélica.