navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Heb 2, 14-18; Sl 104 (105), 1-2. 3-4. 6-7. 8-9 Ev Mc 1, 29-39

Segundo as notícias, em 2024 um total de 4.476 cristãos foram assassinados por causa da sua fé, sendo os cristãos da Nigéria os mais afetados em 69% dos casos (3.100 vítimas). E muito embora este número seja menor do que no ano anterior (com 4.998 casos registados), a comunicação social revela que 380 milhões de cristãos em todo o mundo enfrentam altos níveis de perseguição e discriminação, um incremento significativo frente aos 365 milhões casos de 2023. As detenções e condenações de cristãos aumentaram 15%. A Coreia do Norte continua a encabeçar a lista de perseguições, continuamente desde 2002, onde cristãos enfrentam deportações, trabalhos forçados e execuções, sendo descobertos por praticando a sua fé. Estima-se que ali vivem em segredo, sob um regime de vigilância extrema, 300 mil a 500 mil cristãos. Outros países com níveis de perseguição considerados extremos são: Somália, Yemen, Líbia, Sudão, Eritreia, Paquistão, Irão, Afeganistão, Índia, Arábia Saudita e Myanmar. Em outros países da Ásia Central registou-se um incremento de restrições à liberdade religiosa. Algumas organizações aproximam-se diplomaticamente dos governos e instituições internacionais para que se priorize a liberdade religiosa nas suas políticas externas e incorporar a defesa destes direitos nas suas negociações comerciais e diplomáticas. Solicita-se uma maior determinação ética no desenvolvimento das tecnologias como a inteligência artificial, para evitar o seu uso na repressão de minorias religiosas. Sugere-se, também a alfabetização religiosa entre o pessoal humanitário, para garantir que a ajuda chegue sem discriminação aos cristãos perseguidos e outros grupos vulneráveis.

Lia estes dados tendo como pano de fundo da minha reflexão de hoje o trecho da Carta aos Hebreus:

Uma vez que os filhos dos homens têm o mesmo sangue e a mesma carne, também Jesus participou igualmente da mesma natureza, para destruir, pela sua morte, aquele que tinha poder sobre a morte, isto é, o diabo, e libertar aqueles que estavam a vida inteira sujeitos à servidão, pelo temor da morte. Porque Ele não veio em auxílio dos Anjos, mas dos descendentes de Abraão. Por isso devia tornar-Se semelhante em tudo aos seus irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus, e assim expiar os pecados do povo. De facto, porque Ele próprio foi provado pelo sofrimento, pode socorrer aqueles que sofrem provação.

Neste pôr a Palavra a par da situação dos cristãos no mundo, vêm-me à mente algumas perguntas: Porque se teme o cristianismo? Em Cristo, a fé faz-nos diferentes ou semelhantes aos nossos coetâneos? Como se pode perseguir, maltratar ou matar quem tem “a mesma carne e o mesmo sangue”? Porque se teme a possibilidade de lutarmos todos para libertar da servidão que mata? No meu modo humilde de responder a estas perguntas, o caminho de salvação nunca poderá, para sermos fiéis pela semelhantes a Cristo Jesus, ser de nós para Deus pura e simplesmente, sem a mediação do ser humano como destinatário de cuidado e, em Jesus Cristo, de salvação.

Esta convicção encontra a sua argumentação mais forte no Evangelho, que nos mostra Jesus a curar e a pregar. É esta a terapia de que o mundo precisa, incluindo aqueles que não sabem senão subjugar os seus semelhantes a um poder que fere e que mata. O contrário deste poder é o serviço, que somos chamados a imitar de Jesus. O cristianismo, ao contrário de algumas formas de entender e de viver a religião, nunca subjuga ou mata, mas liberta. Foi para isso que Jesus veio, é para isso que existem os seus discípulos.

Por isso, a ética fundamental do ser cristãos é estar atentos àquilo que assemelha os seres humanos e o cuidado ou defesa dessa semelhança. Não partir desta base é não se assemelhar a Cristo, que partir sempre do serviço e do cuidado como condição para o anúncio do Reino de Deus. Muito “fazem” os cristãos que vivem na clandestinidade: o “ser” fermento inspirador de nova evangelização.

Santo Amaro, apontado como herdeiro espiritual de S. Bento, a cujos cuidados foi entregue em tenra idade, tornando-se um modelo de afeição e solicitude. Antes de ser substituído por Amaro em Subiaco e de subir para o Monte Cassino, S. Bento teve uma revelação que o alertou para a queda de um jovem monge, S. Plácido, na represa de Subiaco. Chamando Amaro, disse-lhe: “Irmão Amaro, vai depressa procurar Plácido, que está prestes a afogar-se”. Amaro apressou-se em direção à represa, correndo sobre a água para salvar Plácido sem se aperceber que tinha saído da terra firme. Quando deu conta do sucedido, Amaro atribuiu o milagre a S. Bento. O que é interessante neste episódio é que as revelação e o milagre se destinam, antes de mais, a livrar aquele irmão de naufrágios literais. Assim foi na missão de Jesus. O ganho para a vida espiritual advém da forma como contemplamos a ação de Deus e de como pró-agimos nestas circunstâncias difíceis da vida humana. Deus livra-nos dos perigos do corpo para que sintamos a importância que ele representa para a alma. Não deveriam pensar assim aqueles que, estando bem no corpo, deveria também cuidar do corpo dos outros? Também nos ensinam estes santos, em resposta ao Evangelho, que é de Cristo e do cristão cuidar dos corpos e das almas.