L 1 Heb 2, 5-12; Sl 8, 2a e 5. 6-7. 8-9 Ev Mc 1, 21-28
É verdade que ninguém nasce ensinado e que dependemos da cultura e da experiência dos outros. É, também, verdade que andamos uma parte da vida a citar outras pessoas cuja investigação e juízo crítico nos levou a ter novos conhecimentos. Não deixa de ser verdade que crescemos na maturidade a ensinar e a fazer segundo o que pensamos diante das mais variadíssimas pessoas e circunstâncias, sem ter de citar alguém e sem depender absolutamente dos outros.
O povo sabia distinguir perfeitamente Jesus dos escribas. Estes citavam e interpretavam a doutrina dos profetas anteriores. Jesus apresenta-Se como autêntico profeta, investido de um poder inédito que Lhe vem de Deus. “Ao submeter-Lhe todas as coisas, Deus nada deixou fora do seu domínio”.
A mensagem que está no centro desta passagem evangélica ─ que podemos considerar neste início do tempo comum como mais uma das manifestações de Jesus ─ não é tanto sobre a origem de espíritos malignos e sobre os exorcismos, mas sobretudo acerca de que o anúncio do Reino de Deus está acompanhado de gestos de cura e libertação de tudo aquilo que oprime o ser humano. É preciso lutar em nome do Evangelho contra tudo aquilo que se “apodera” do ser humano e danifica a sua dignidade integral.
Jesus parte de uma interpretação cultural do seu tempo acerca das possessões demoníacas que oprimiam o ser humano, mas estava acima dessas interpretações. Por isso, a atitude de Jesus é mandar calar e sair o mal que existe no homem. Assim também nós, em nome de Jesus, podemos começar por mandar calar todos aqueles “refrães” ou “slogans” que inferiorizam as pessoas ou que limitam as pessoas na sua busca da verdadeira felicidade.
O problema de quando passamos a vida a citar outros sem questionamento pessoal e juízo crítico diante das diversas situações da atualidade pode-nos acontecer o que acontecia com os escribas: a revelação perde força e aumenta a doutrina carregada de modo de fazer dos homens. O episódio que hoje proclamamos mostra-nos um salto de qualidade na forma como se lida com os problemas concretos da humanidade. Porque a situação que implica uma solução imediata não tem que ver só com a cura em si, mas também tem que ver com o horizonte último da vida humana que ali se apresenta nem que seja num simples piscar de olhos.
Anthony Hopkins, o ator britânico que viu a sua casa ser destruída pelo incêndio em Los Angeles, afirmou que “à medida que nos curamos da devastação provocada pelos incêndios, é importante recordarmos que a única coisa que levamos desta vida é o amor que damos aos outros”. É isto que aprendemos com o Evangelho: não só curar do mal, como o dos incêndios, mas construirmos o bem que edifica a vida humana.

