navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 1Jo 3, 22 – 4, 6; Sl 2, 7-8. 10-11 Ev Mt 4, 12-17. 23-25, 2ª-feira depois da Epifania

…Quando Jesus ouviu dizer que João Batista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar.

Mesmo sabendo que João Batista, proclamado por Jesus como o maior dos profetas, é um verdadeiro Precursor do Salvador, não deixa de estar diante dos nossos olhos que a missão do Mestre, embora no seguimento do mesmo, era contrastante com a missão do seu primo. Isso já estava nas palavras deste quando dizia:

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque era antes de mim. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim batizar na água (…) Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo.

Jo 1, 29-34

Só Jesus é que tira o pecado do mundo. Só Jesus é que batiza no Espírito Santo. E, embora anunciado anteriormente, só na pessoa de Jesus é que a manifestação do Reino de Deus começou a realizar-se.

Tremenda humildade a do Batista, que, literalmente, perde a cabeça, para que Jesus encabece uma nova e definitiva missão. Que contraste tão grande entre a beira-mar em que Jesus começa a sua missão e a prisão onde João termina a sua! Porém, não deve ter sido fácil, também, para Jesus deixar o conforto de Nazaré para viver publicamente no meio da confusão de Cafarnaum. É a Luz que veio para iluminar as nossas trevas.

Quantas histórias de sucessão na paroquialidade das comunidades das nossas dioceses são assim: para que a experiência de “lua-de-mel” de párocos novos ou de novos párocos aconteça, muitas vezes os seus antecessores trabalharam arduamente para que tudo ficasse em ordem. João, como estes párocos experientes, poderiam ter dito como Paulo: combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé (2Tm 4). Estou convencido de que a nossa participação na caridade pastoral de Cristo acontece sempre sobre o pedestal da fé e da esperança dos que nos antecederam. E o mesmo lhes terá acontecido em relação aos seus antecessores. Ou seja: se estou aqui hoje a tentar fazer o bem, foi porque alguém me transmitiu a fé, na esperança. E isto também faz parte da caridade pastoral.

Esta lógica contrasta com o mundo, como lemos nesta notícia, em que os que administram os bens públicos veem as suas vidas requalificadas por leis económicas que nunca mudam para alguns/poucos. Acumulam-se funções para que as remunerações não diminuam. E trata-se de funções que a maioria dos cidadãos não conhecem ou não compreendem. Isto acontece enquanto uma grande parte dos cidadãos vivem numa constante instabilidade económica, sem terem a certeza de terem habitação e emprego garantidos. No entanto, justifica-se que para haver melhores políticos, eles deveria ser melhor pagos.

A Epifania não é uma manifestação para uns privilegiados, mas para todos os que procuram Deus com um coração sincero. Como não haveria de ser assim, também, em Igreja? Como não haveria de ser assim na sociedade?

Hoje peço ao Bom Pastor que pregava e curava a todos os que vinham ao seu encontro, precisamente, pelos que exercem o poder político, para que, coloquem a ética em primeiro lugar, não deixando que uma mera lógica economicista governe acima do bens essenciais comuns da “polis”. E peço, também, para que a missão dos párocos, nas nossas comunidades cristãs, não siga a lógica do acumular funções para acumular mais dinheiro, mas a de, ainda que a partir de uma sustentação digna (que todos os que exercem funções públicas devem ter), possam estar disponíveis para ajudar a resolver os problemas de todos, para uma vida integralmente bem conseguida (segundo as bem-aventuranças).