L 1 Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Sl 127 (128), 1-2. 3. 4-5; L 2 Cl 3, 12-21; Ev Lc 2, 41-52 ─ Na Festa da Sagrada Família de Nazaré. Reflexão inspirada em parte na meditação do Pe. Pedro Rodrigues (Liturgia Diária).
Na celebração de hoje, dentro da oitava de Natal, somos convidados a entrar dentro da intimidade da Família de Nazaré ─ formada por Jesus, Maria e José ─ escola onde podemos aprender a deixarmo-nos transformar em instrumentos de Deus na sociedade atual. Sobre a Família de Nazaré não sabemos muito e até há um hiato entre os episódios marcantes que são proclamados pelos evangelhos: entre a apresentação do Menino no Templo e a perda e o encontro do Menino no templo aos 12 anos. Daqueles 12 anos de vida íntima, o que sabemos é que o Menino crescia e fortalecia-se, enchendo-Se de sabedoria, e que a graça de Deus estava com Ele. Depois da perda e o encontro no Tempo e o Batismo do Jordão, passam-se 18 anos, dos quais também não sabemos mais nada. São os anos escondidos da vida de Jesus. A única coisa que sabemos é que o Menino crescia em todas as dimensões em que é possível uma pessoa crescer.
Sobre isso, a primeira leitura pode informar-nos qual seria o ambiente criado pela Sabedoria de Deus para que os elementos de uma família pudessem ajudar a crescer assim, na vida humana e na expressão da fé. Sobre a família, na primeira leitura, vejo um retrato sobre o que Deus nos diz que os elementos de uma família são capazes de fazer. Deus dispôs de tal modo as relações entre pais e filhos de modo que uma relação justa entre os seus elementos era praticamente a vivência de uma experiência religiosa. Quer dizer, a relação familiar feita de virtudes como honra e amparo, vistas como fonte de perdão e alegria, que não diminuem quando diminui o vigor da vida.
O contexto do Evangelho é o de uma peregrinação anual, em que Jerusalém acolhia multidões. Ali levariam preocupações e dali trariam a capacidade de ter esperança. Uma família descrita e proposta pela Sabedoria de Deus foi e será uma família que caminha na esperança. E aquela que mais se aproxima e ser ve de modelo para responder ao propósito de Deus para os seres humanos é a Família de Nazaré.
São Paulo, na segunda leitura, fala-nos de uma “roupagem” que eu só vejo possível aprender-se a tecer nas relações familiares, os sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência; qualidades que nos permitem suportarmo-nos uns aos outros e perdoarmo-nos mutuamente. Esta “roupagem” é a de um adulto na fé. Pensa-se que aqueles 12 anos de Jesus seriam os legalmente aceites para que um rapaz judeu pudesse entrar na sua vida de adulto, com as responsabilidades de adulto, nomeadamente para ler a Torah publicamente.
Porém, há uma coisa estranha que na caravana de regresso a Nazaré acontece: em vez de Jesus caminhar ao lado de José (era assim com todos os filhos e pais, como as meninas acompanhavam suas mães), Jesus fica “perdido” no Templo. Esta perda leva-os de volta a Jerusalém, onde O encontraram passados 3 dias. O sucedido é o suficiente para entendermos que Jesus sente o Templo e a manifestação da sua sabedoria entre os doutores como uma necessidade. Assim, Jesus é imagem da sabedoria de Deus. Assumido numa família humana, Jesus assume a sua vocação na perspetiva de uma família universal, para a qual exercerá a sua missão de redenção.
Como Jesus, também, os nossos pequeninos vão aprendendo, desde o batismo e a catequese, ou vice-versa, a proclamar a Palavra de Deus e assumir o mistério da Páscoa que nos envolve, centro de onde dimana toda a força e dons para vivermos a nossa vocação sobre a terra.
