Li na imprensa inscrita sobre a situação em Gaza um estudo junto de 504 crianças feridas, incapacitadas e/ou separadas dos seus cuidadores, concluiu que 96% das crianças sentem que a morte é iminente e quase metade quer morrer em consequência do trauma. 92% das crianças “não aceitavam a realidade”, 79% sofriam de pesadelos e 73% apresentavam sintomas de agressividade. O inquérito revela que 88% das famílias foram deslocadas várias vezes, 21% forçadas a mudar-se seis ou mais vezes.
A situação no Extremo Oriente não está diferente da circunstância em que o Filho Unigénito de Deus encarnou. A indiferença para com os mais frágeis existe neste tempo como outrora. O Menino Jesus e os Santos Inocentes são “proto-mártires” desta indiferença que anula a possibilidade do acolhimento e do cuidado que com que se “assina” com a vontade e na prática a dignidade infinita da pessoa humana. A paz é um dom tão distante para aquelas crianças como distantes eram os montes, além da Babilónia, de onde tinham partido aqueles mensageiros enviados a anunciar a boa nova. Como ir mais além do “consumo” de tradições natalícias, ao encontro do verdadeiro natal?
O mundo precisa de Natal e o acontecimento de Belém é relevante, convidando a que ali entremos em profundidade, porque Deus Se fez carne para sublinhar a importância da humanidade e do seu sentido real. As guerras declaram que a vida humana pouco vale. A mensagem cristã vem garantir o contrário, ou seja, que a vida humana vale mais do que as ideologias, o que se crê, o que se come, o que se vê, etc. Como dizia Edgar Morin, “só o humano pode desumanizar-se”. Nós podemos acrescentar: só com Jesus Cristo, o Homem-Deus, Príncipe da Paz, é que podemos voltar a humanizar o que sofreu a desumanização. Por isso, Ele quis incarnar na nossa humanidade, inclusivamente incarnando na Eucaristia, para nos alimentar na esperança.
Ancorados em Cristo, cruzamos o limiar deste templo santo e entramos no tempo da misericórdia e do perdão, para que a cada homem e a cada mulher seja aberto o caminho da esperança que não desilude.
Com estas palavras, o Papa Francisco abriu nesta noite santa a Porta do Jubileu da Esperança, lembrando-nos que a nossa esperança é o próprio Jesus Cristo que nasceu para nós.

A espera do Advento que representa toda a nossa vida terrena é a terra da fidelidade e da criatividade.


