navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 7, 10-14; Sl 23 (24), 1-2. 3-4ab. 5-6 Ev Lc 1, 26-38

No Evangelho deste 4º dia da novena do Natal, a que vai ser Mãe de Jesus é convocada de duas formas, com dois nomes: “Ave, cheia de graça” e “não temas, Maria”. Primeiro é chamada pelo nome que Deus lhe dá, um nome novo e original, a ter que ver com o desígnio em que a quer fazer participar; depois, a humanidade que tem por nome Maria é convocada para uma aventura na qual não há necessidade em ter medo.

Como em Maria, a cheia de graça, também nós somos convidados a aprender a calar os medos implícitos à experiência humana, para conseguirmos responder ao chamamento divino para o inédito que Deus quer realizar em nós e a partir de nós. Aceitando este duplo convite ─ a acolher a graça do Espírito Santo e a não temer ─ Maria deu origem a uma aventura de vida e de educação do futuro Filho Unigénito de Deus, em que nenhum desequilíbrio emocional pôde abalar as forças patentes à sua missão de anunciar o Reino e de salvar a humanidade. Esta capacidade de não deixar que instabilidade das emoções interfiram na missão divina teve origem neste anúncio.

A este respeito, é interessante a leitura da obra de Augusto Cury, Maria, a melhor educadora da história. A perceção deste autor crente é a de que Maria deve ter preparado bem emocionalmente o seu Filho Jesus para poder passar pelos embates que passou, com o estilo de vida que viveu, para instaurar o Reino que não terá fim.

Que o regresso às nossas origens, para as celebrações desta quadra natalícia, possa ser mais uma oportunidade para recordarmos o bem que Deus fez em nós a partir da educação que recebemos dos nossos pais, familiares, educadores, etc. na dimensão que constitui a base do nosso crescimento vocacional. Neste regresso, não deixemos que os aspetos mais sombrios nos levem a ter medo de assumir o novo que o Senhor quer consumar no nosso itinerário vocacional, mas tenhamos memória agradecida de um dia termos sido convidados a viver uma vocação específica, não obstante as nossas limitações ou fragilidades.

E porque a celebração do Natal envolve muitos sinais ─ uns que endereçam para os valores do verdadeiro Natal e outros que o ofuscam ─, tenhamos, também, o cuidado de não colocarmos os sinais no mesmo “saco”. Pois, como inspira o psicanalista Massimo Recalcati, o desejo de coisas terrenas leva a que, quando as possuímos, a posse ou a propriedade esvazia o objeto do seu fascínio. Por isso, o desejo é um engano: desejamos o que não temos e quando temos o que desejamos, o que temos esvazia-se de valor. Sabemos que o discurso capitalista, de mercado desfrutou desfrutou amplamente, radicalmente deste esquema. De modo que quantos mais objetos quisermos possuir, mais se alimenta o (falso) desejo de ter mais. Que leva as pessoas ao supermercado para ver o que lhes falta, ilusoriamente, no coração, e não para comprar o que verdadeiramente necessitam para a sua despensa ou casa. Então, há um tipo de desejo enganador: o de possuir coisas terrenas em excesso e o de possuir aquilo ou Aquele que só Deus pode dar. Este é preciso pedi-lo convenientemente, não como algo que se possui totalmente, mas, pelo contrário, algo que nos possuir na medida em que nos dermos ao longo do nosso caminho. Contemplemos os sinais do Natal em casa e na rua, na simplicidade e na pobreza, não no que se compra, mas nas pessoas e no que já temos de essencial para viver: ali encontraremos Jesus Cristo a espreitar para nos cativar o coração sedento de eternidade.