navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jr 23, 5-8; Sl 71 (72), 2. 12-13. 18-19; Ev Mt 1, 18-25. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

Ontem escutámos a genealogia de Jesus com a qual Mateus inicia a sua versão do Evangelho. Parece com isso ele ele tem dois objetivos: histórico, demonstrando-nos que Jesus Cristo é a plenitude da revelação e das gerações do Antigo Testamento que estão ao serviço da preparação da mesma e que representam a origem humana de Jesus; e teológico, patente na afirmação de fé de que Jesus é o chamado Cristo. Imediatamente, na segunda parte do primeiro capítulo que proclamámos hoje, relata-se a origem divina de Jesus.

O nascimento de Cristo é relatado como acontecimento absolutamente milagroso. Maria concebeu Jesus sem o concurso de nenhum homem, por obra do Espírito Santo. Ao mencionar esta Pessoa da Santíssima Trindade, Mateus pensa no poder inédito criador de Deus. E o anúncio deste milagroso nascimento tem ─ diria melhor constitui ─ várias consequências, podemos também verificá-las do ponto de vista histórico e do ponto de vista teológico:

1) A primeira é a perturbação de José, com estava desposada Maria, faltando somente a cerimónia das bodas, que culminava com a coabitação. Mesmo que uma hipotética conceção de um filho a partir de José acontecesse no tempo intermédio entre o desposamento e a coabitação, para a lei judaica não seria nenhum problema, considerando-se aquele filho como legítimo. Porém, não há razão para pensarmos que Maria não tenha informado José sobre tudo o que estava a acontecer. José, mais do que pensar na culpa ou inocência de Maria, perguntar-se-ia sobre qual seria o papel que ele mesmo deveria desempenhar naquela situação nova. Eis que a intervenção sobrenatural do anjo o esclarece: deverá dar o nome ao menino, ou seja, deverá ser o pai legal (era o pai quem dava o nome). Cessa, assim, a perturbação.

2) O nascimento de Jesus é, ele próprio, consequência da intervenção de Deus na história da humanidade, anunciada pelos profetas: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’» e «Dias virão – diz o Senhor – em que farei surgir para David um rebento justo. Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria: há de exercer no país o direito e a justiça». Observemos que enquanto uma linhagem sacerdotal política irá tentar destruir os verdadeiros ligames na relação entre o Deus verdadeiro e a humanidade, a Liturgia da Palavra apresenta a linhagem sacerdotal a constituir o “fio” que entrelaçará Deus e a humanidade por uma relação eficaz de graça.

Portanto, o nascimento de Jesus é uma “consequência profética milagrosa” que traz consequências humanas e esse nascimento é, também, consequência passiva do anúncio e acolhimento dos desígnios salvíficos de Deus.

Como José, também nós podemos perguntar-nos pessoalmente: qual é o papel que me é reservado a mim desempenhar no nascimento do Filho Unigénito de Deus anunciado pelos profetas? Repete-se aqui a necessária pergunta que as multidões, os publicanos e os soldados perguntavam a João Batista: “E nós, o que devemos fazer?”.

Que como José também nós possamos aproveitar o sono ─ que aqui podemos entender como oração ─ e “acordarmos” dela dispostos a colaborar com os desígnios de Deus. Aproveitemos, pois, o nosso momento de adoração eucarística de logo à tarde ─ estando como que diante de uma “sarça ardente nova” ou diante do Anjo que representa a força de Deus ─ para perscrutarmos o nosso papel na incarnação milagrosa de Jesus eucarístico, entre a perturbação humana diante de tal feito divino e a missão divina que Deus quer dar a cada um de nós.