L 1 Is 2, 1-5; Sl 121 (122),1-2.3-4ab.4cd-5.6-7.8-9 Ev Mt 8, 5-11
A liturgia de hoje levou-me a revisitar a carta do Papa Francisco sobre o papel da literatura na educação. No n.º 12 lê-se:
Graças ao discernimento evangélico da cultura, é possível reconhecer a presença do Espírito na variegada realidade humana, ou seja, é possível captar a semente da presença do Espírito já plantada nos acontecimentos, sensibilidades, desejos, tensões profundas dos corações e dos contextos sociais, culturais e espirituais.
O Apóstolo Paulo aprendeu a ser “colecionador de sementes” com Jesus, como podemos ver neste encontro do Mestre com o centurião romano. Porém, não é entre a poesia que Jesus colhe as tensões do coração humano, mas numa situação concreta em que, em contacto com a doença, a fragilidade ou a impotência de alguém, uma simples súplica é, mais do que uma semente, uma manifestação de fé, admirada por Jesus como possibilidade de participação no seu Reino.
Recordemos que o centurião era pagão. Mas, conforme Paulo reconhece que os atenienses eram religiosos e a sua literatura era uma preparatio evangelica, assim aquele centurião também era crente e Jesus viu nele um caminheiro para o banquete do Reino de Deus. E alegrou-se por isso! E expressou essa alegria!! Reparemos no texto do Evangelho que Jesus não perdeu tempo com apresentações; como habitualmente, foi direto ao assunto: «Eu irei curá-lo». Razão tem o Papa Francisco ao afirmar que «o seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade: Ele amou-nos primeiro (cf. 1 Jo 4, 10). Graças a Jesus, «conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele” (1 Jo 4, 16)» (cf. Dilexit nos, n.º 1). Foi neste coração aberto do Senhor que o centurião se fiou para ter a coragem de lhe pedir a cura do seu servo que sofria “horrivelmente”.
Assim é o tempo de Advento na Liturgia da Igreja: essa decisão eternamente repetida de abraçar a humanidade, incarnando-se nas suas vulnerabilidades. No meio das dificuldades, a necessidade daquele centurião levar a sério a doença do seu servo eram como as dúvidas e esperanças de Maria, José, Isabel e Zacarias, entre o seu tempo presente e o mistério que se estava a revelar. Fragilidades iniciáticas, a precisar de um “colo” suficiente maduro que ajude a calar as vozes ruidosas da intempérie do momento e a abrir o ouvido a uma outra Voz que dê sentido à existência.
O poeta Antonio Praena Segura (Granada, 1973) partilha que não há maior pedagogia do que pegar no braço de estranhos, porque caminhar ao lado deles leva-nos a nós próprios. Esta afirmação ajuda-me a compreender que no encontro com Jesus todos saem a ganhar: é o encontro com Ele e o encontro consigo próprios. Ninguém deveria sair a perder de um encontro com Cristo; se isso acontecer algum abuso ali serve de empecilho.
A verdade é que aquela simples súplica feita por um centurião pagão está na boca ─ parafraseado em Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo (cf. Ordinário da Missa, p. 529) ─ é a chave de resposta à expressão Felizes os convidados para a ceia/o banquete do Senhor… na boca de todos os comungantes antes da comunhão eucarística.
Naquele dia, aquele centurião foi confirmado na fé. E a sua missão de cuidar também saiu confirmada! Digo isto, porque, não raramente pensamos que a missão cristã é um dado a posteriori do reconhecimento da fé numa pessoa. Há por aí muitas pessoas em missão que ainda não foram reconhecidas pelos homens, mas já tocadas pelo “sopro abrasador” de Deus, que não as deixa desistir de ser o que são na relação com os outros. É da realidade que o Reino emerge como manifestação da glória de Deus.
A profecia de Isaías podem inspirar-nos a acalorar as pessoas de boa vontade, para que possam caminhar deste o ornamento do “gérmen do Senhor” que está nelas até aos “frutos da terra” que serão seu esplendor e alegria. O “sopro da justiça” é o reconhecimento da verdade que está nas pessoas; e o “sopro abrasador” é o acompanhamento caloroso para que Deus consume o bem que nelas iniciou.
Na vigília penitencial de 1 de outubro de 2024, que antecedeu a segunda sessão do Sínodo dos Bispos foram lidos os pedidos de perdão escritos pessoalmente pelo Papa Francisco, entre os quais:
(…) Peço perdão, sentindo-me envergonhado, por não termos reconhecido o direito e a dignidade de cada pessoa humana, discriminando-a e explorando-a — penso especialmente nos povos indígenas — e por termos sido cúmplices de sistemas que favoreceram a escravatura e o colonialismo. Peço perdão, sentindo-me envergonhado, por termos assumido e participado na globalização da indiferença perante as tragédias que transformam as rotas marítimas e as fronteiras entre as nações de um caminho de esperança num caminho de morte para tantos migrantes. O valor da pessoa é sempre maior do que o da fronteira. Ouço neste momento a voz de Deus que nos pergunta a todos: «Onde está o teu irmão, onde está a tua irmã?». Perdoai-nos, Senhor!
O centurião, para além de pagão, é romano e traz a Jesus a preocupação por um homem que é seu subalterno, um simples servo. Na sua doença, não o abandonou. Cuidou dele. Poderá não ser uma manifestação de fé no bem Deus o atrevimento de cuidar dos outros, apesar das “fronteiras” de qualquer tipo?
Neste Dia Internacional para a Abolição da Escravatura, rezemos para que os que têm responsabilidades sociais e eclesiais saibam reconhecer todos os tipos de escravidão na atualidade, e se descubram formas conjuntas de lutar contra os crimes que ferem a dignidade humana infinita. Rezo, hoje, também, por todos os profissionais de saúde, que imitam Jesus na disposição clara e decidida de curar, assim como se reveem na pessoa do centurião como cuidadores de enfermos, para que sejam ponte, não só entre a medicina e a cura, mas também entre a situação de cada doente e o Médico divino.
