navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jr 33, 14, 16; Sl 24 (25), 4bc-5ab. 8-9. 10 e 14 L 2 1Ts 3, 12 – 4, 2 Ev Lc 21, 25-28. 34-36 ─ 1º Domingo do Advento (Ano C ─ Lucas)

Estamos a iniciar uma caminhada a que, aqui na Arquidiocese de Braga, damos o nome “Passos de Esperança”. Toda a dinâmica inspirada na Palavra de Deus proclamada neste tempo do Advento é um convite a reorientar o foco do olhar. E para isso, somos convidados a movimentar os nossos corpos. Atrevo-me a sugerir a imagem que é deixarmos de ser “tripés” fixos (como este que tem um microfone) para passarmos a ser tripés ambulantes ou amovíveis. Mais: e porque não “drones”, que andam mais longe, guiados pelo Espírito Santo, para ir de encontro aos lugares onde Jesus Se quer manifestar na nossa vida e na vida dos nossos contemporâneos?

Mas, antes de mais, para “levantar voo” através do sonho de uma vida mais pacífica, teremos de “aterrar” num caminho especial, na “pista” que é o caminho proposto por Jesus Cristo. E por isso, o primeiro convocado para isso acontecer é o nosso coração: é ele o nosso “joystick” ou “comando” para podermos deixar-nos orientar no caminho certo. Na verdade, precisamos de “emprestar” ou “empresta-dar” este “joystick” especial ao Espírito de Jesus, para que Ele nos guie por um caminho que nos leve ao verdadeiro Natal. E com mais razão podemos “emprestar” o nosso coração ao Senhor, quanto mais estivermos a deixar-nos influenciar pelos ritmos do mundo.

O Papa Francisco, com a publicação da nova Encíclica “Amou-nos” (Dilexit nos) sugere-nos que preparemos o Natal com o coração, porque “o seu coração aberto precede-nos e espera-nos incondicionalmente, sem exigir qualquer pré-requisito para nos amar e oferecer a sua amizade”. Para isso, “é necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência”. Para recuperarmos o verdadeiro Natal é preciso recuperar o nosso coração, quer dizer: a engrenagem do nosso interior, ali, a partir de onde tudo acontece.

Mas é muito difícil fugir aos “ruídos” sociais desta época natalícia, que já começou a ser preparada com o hallowin, o thankgivens’day, o blackfriday, o cybermonday, estrelas que brilham e desviam o olhar do verdadeiro centro do Natal: a nossa relação com um Deus amoroso e com os irmãos carentes de amor. Para nos virarmos para o lado certo e não andarmos com a bússola descontrolada, temos o caminho litúrgico do Advento. Nele, vamos descobrir aos poucos que temos necessidade de silêncio e de paragem, porque só com outro som e outro ritmo podemos descobrir a maravilha que é constatar que de um Menino frágil e da nossa fragilidade pessoal, pode nascer uma vida transformada e transformadora.

Hoje, estamos aqui para pedir ao Senhor um coração que saiba escutar e que, em resposta ao convite do Evangelho, nos oriente a cabeça e o olhar para cima, quer dizer: para a verdadeira estrela que nos promete aquele encontro maravilhoso com Jesus. Não é uma mera questão de datas, mas encontro de vontades, a uma hora e um lugar que só Deus é que sabe. Pode ser à porta de um pobre ou junto ao beco onde dorme um sem-abrigo; pode ser na própria casa, na relação com os nossos familiares; pode ser fora dos tempos e dos ritos, lá onde existam pessoas marginalizadas da vida social ou eclesial; …

Há por aí muitas coisas desajustadas na sociedade, a pedir-nos que tenhamos sucesso por caminhos ou ritmos que desumanizam. E ficam muitas perguntas por responder; ou respostas para perguntas que nunca foram feitas. É preciso, também, outra forma de olhar Deus: em vez daquele imagem do Todo-poderoso e inacessível, procurarmos aquele Deus que é acessível, que nos toca e se deixa tocar, e que também procura cuidados nos irmãos mais frágeis e pobres. É este Deus que aparece na Pessoa de Jesus que cresceu e viveu a olhar os seres humanos muito além de qualquer categoria ou rótulo e que olha a todos como os sonha ser. É assim que a novidade pode acontecer!

Anda por aí uma imagem a correr pela Internet com uma imagem de uma família pobre debaixo de uma tenda improvisada, com a legenda “há presépios que ninguém vê, mas que estão montados o ano inteiro…”. Num mundo sem coração, preso ao consumo e à violência, somos convidados por Jesus a “erguermo-nos e a levantar a cabeça, porque a nossa libertação está próxima”. Não precisamos de esperar outros sinais, isso levaria a desesperar. A palavra correta é “esperançar”, quer dizer: dar esperança ou dar razões para esperar, apoiados na promessa do amor de Deus já em ato.

Uma tendência que pode “matar” a esperança é vivermos como satisfeitos neste mundo, sem olhar para o outro. É muito tentador adaptarmo-nos à situação, instalarmo-nos confortavelmente no nosso pequeno mundo e viver tranquilos, sem maiores aspirações. Quase inconscientemente, temos a ilusão de sermos capazes de alcançar a nossa própria felicidade sem mudar em nada o mundo.

Quem ama verdadeiramente a vida e se sente solidário com todos os seres humanos sofre ao constatar que a grande maioria ainda não consegue viver dignamente. Este sofrimento é um sinal de que ainda estamos vivos e conscientes de que algo está errado. Devemos continuar a buscar o reino de Deus e a sua justiça. Não nos podemos permitir um luxo que não nos leve a esperar nada melhor.

Jesus foi um incansável criador de esperança. Toda a sua existência consistiu em contagiar aos outros a esperança que Ele próprio vivia no mais profundo do seu ser. Fê-lo com aquele grito com insistência: “erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança”.

É curioso que na mesma sociedade em que surgiu o “Black Friday”, surgiu, como alternativa, o “Dia de Não se Comprar Nada” (Buy Nothing Day). É uma voz menos ouvida, porque soa no deserto. Os que quiserem ouvir esta voz, quer dizer, os que quiserem seguir por este caminho, encontrar-se-ão com Jesus na sua humildade e pobreza. A dinâmica Advento da Arquidiocese dá a sugestão de, por exemplo se dar um passeio por onde se puder, sem telemóvel; contemplar a criação: a natureza, os animais, as pessoas. E quando passar pela casa dos vizinhos pergunte-se: conheço-os, ou sei se necessitam da minha ajuda? O que me falta para mudar o foco e poder servir com esperança neste tempo?

Nesta que é a “passagem de ano” dos cristãos, descubramos a força que está na simplicidade que nos faz ver mais longe. Não deixemos que nos matem a esperança! Dêmos ao Espírito Santo o controlo dos nossos corações. Levemos esperança a quem vive em circunstâncias difíceis. Preparemos a sua vinda com a prática das boas obras (Oração Colecta)! Será Natal. Algo de novo surgirá!

@gesueucaristia

“Una di quelle Omelie che fa tanto riflettere… il Grande Don Tonino Bello… _______________________________ •Domenica di avvento 1988• ‼️💛‼️

♬ suono originale – Gesù Eucaristia il vivente