L 1 Ap 20, 1-4. 11 – 21, 2; Sl 83 (84), 3. 4. 5-6a e 8 Ev Lc 21, 29-33
Fica claro com as leituras destes últimos dias do ano litúrgico que a instauração do Reino de Deus, protagonizada por Jesus, coincide com a destruição da Jerusalém terrena. Para que aquele novo Reino cresça, esta deve diminuir.
Neste mundo envolvo em guerras exteriores, provenientes de conflitos interiores do ser humano, uma outra Voz se faz ouvir: a da esperança que vale a pena esperançar. Tikvâh ─ a corda a que vale a pena agarrarmo-nos, para não perdermos a vista da realização da promessa que Deus já operou através Jesus.
Massimo Recalcati, um famoso psicanalista italiano, que acabou de publicar o livro La legge del desiderio, radici bibliche della psicoanalisi, afirma que “a tarefa da palavra de Jesus é libertar a humanidade deste medo“. Ele refere-se ao medo de morrer. Nós estamos diante da Palavra destes dias para deixar que o Senhor nos livre da possibilidade do desespero ou da desesperança.
Uma notícia de há poucos dias apresentou uma iniciativa lançada pela Igreja de São Pedro, em Lucerna, na Suíça, intitulada Deus in Machina, onde, em complementaridade com a Confissão através do Presbítero, qualquer pessoa pode aproximar-se para estar diante de um holograma de Jesus Cristo, para fazer as perguntas que quiser sobre a vida e a religião. É, em primeiro lugar curioso, que tenha sido um avatar da Pessoa de Cristo, em vez dos Santos, a ser escolhida para interlocutor digital com os interessados. Ao mesmo tempo, descobriu-se, pelos utilizadores que as questões mais procuradas eram amor e relacionamentos, a morte e o mais além. O mentor desta experiência analisa que “é um espelho dos desejos humanos, que agora também procuramos expressar nas interações tecnológicas”. Esta experiência pode, também, revelar-nos que vão carecendo pessoas preparadas para o acompanhamento pessoal. E é pena que as pessoas não tenham coragem de colocar as suas “esperanças” ou “desesperanças” diante do Senhor Jesus incarnado (no padre, no acompanhador espiritual, no conselheiro, no familiar, etc.) e sim num “avatar” de Jesus Cristo.
O Evangelho deste dia garante-nos quatro coisas:
(1ª) os acontecimentos de que fala Jesus incluem os acontecimentos de hoje e não precisamos de esperar outros com “manias” de fim do mundo ─ o que nos convida a um olhar sobre a realidade;
(2ª) o Reino de Deus está próximo, embora nem sempre seja fácil de ver, porque foge à nossa manipulação, mas está dentro de nós, ao lado e ao longe ─ o que nos faz sair da autossuficiência e autorreferencialidade, ao encontro dos outros;
(3ª) a geração a que Jesus se refere é a humanidade inteira, de todas as latitudes temporais e geográficas ─ o que nos apela à fraternidade humana universal;
(4ª) os acontecimentos dramáticos não têm a última palavra, só as ações do amor de Deus que nos enviou Jesus para nos salvar ─ o que nos garante que há um sempre mais-além a que podemos sonhar e a que nos podemos confiar.
O grande desafio para o cristão neste tempo do Advento que se aproxima é incarnar o melhor possível a Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, transportar na alma os anseios e angústias da humanidade que procura solução.

