navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ap 14, 1-3. 4b-5; Sl 23 (24), 1-2. 3-4. 5-6 Ev Lc 21, 1-4. “Os pregadores dirijam-se aos cristãos com a Bíblia numa mão e o jornal na outra” (Karl Barth).

O lamento de Jesus diante do tesouro do templo pode bem replicar-se no lamento dos países mais pobres ao receber a notícia sobre as verbas viabilizadas na COP29. Os estados ricos tinham acenado com 1,3 biliões, mas acabaram por comprometer-se com um financiamento anual de 250 mil milhões até 2035. Assim, os países mais expostos ao impacto das alterações climáticas veem as suas expetativas frustradas em relação aos países que mais emissões de gazes tóxicos fazem para a atmosfera.

O texto do Evangelho pode não refletir nenhuma recordação histórica, uma vez que era muito comum este tipo de relatos nas outras religiões, para se transmitirem verdades de caráter universal (cf. VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007, p. 1190). Seja como for, os seus elementos ajudam-nos a aplicar a mesma verdade que se quer transmitir: não se trata só do tesouro do templo (contribuição religiosa), nem só de pequenas moedas (bens materiais); trata-se de dar a própria vida em profundidade, seja em que dimensão for da nossa existência terrena: na família, no trabalho, na celebração da fé, etc. Tudo faz parte da vivência da fé (não é só dentro da Igreja…). Aqueles ricos dariam mais tempo e recitariam mais formulários que a pobre viúva, porque até teriam mais tempo livre do que ela para rezar no templo, ganhando mais moedas em menos tempo. No entanto, é ela que sai justificada daquele momento, observada por Jesus no ato de se dar profundamente.

Jesus já tinha dito aos escribas: “dai antes de esmola o que está dentro e tudo para vós ficará limpo” (Lc 11,41). Cuidado, portanto, com a religião baseada meramente nos ritos externos; não é de boas intenções “está o inferno cheio”…! Uma pequena oração sincera pode valer mais para o Senhor do que longas rezas sem coração… A oração adquire valor à medida da exigência com que se vive a vida no confronto com Deus e com os outros.

A vocação cristã não pode ficar, embora comece sempre por essa dimensão, por uma mera razoável autorrealização (modelo da criação). É preciso dar-se um salto ─ e só será vida adulta se o salto se der ─ para o modelo da redenção, que é a responsabilização pelo bem do outro. É a mesma diferença que existe entre o enamorar-se e o amar: passar do sentimento de bem estar pessoal na relação com a outra pessoa, para um amor que procura maioritariamente o cuidado do outro.

Uma vida casta é a de quem procura o bem do outro pelo outro através do bem. Será “incasta” (de onde deriva incesto) se o bem de si está à frente do bem do outro. E isto não tem que ver meramente com abusos sexuais, mas também de consciência ou de substituição do outro no que toca à realização da vocação pessoal para a salvação. A este nível, como a Igreja hoje reflete e protagoniza, há muita necessidade de acompanhamento pessoal. Serve este para que cada jovem, cada pessoa descubra o designo pessoa de ser amado e de poder responder a este amor pessoal de forma comunitária.

Hoje rezo para que os pobres não sejam esquecidos e haja cada vez mais solidariedade. E para que, também, dentro da missão da Igreja não “mande” o dinheiro mas as inspirações do Bom Pastor.

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