L 1 Ap 10, 8-11; Sl 118 (119), 14 e 24. 72 e 103. 111 e 131 Ev Lc 19, 45-48, na memória de Santa Cecília, virgem e mártir
Conforme a Igreja supera a cidade terrena de Jerusalém, assim a Pessoa de Jesus supera o seu templo como novo e definitivo Templo da glória de Deus. A vida e vocação de Cecília pode perfeitamente espelhar a página do Evangelho hoje proclamada, porque quer o seu corpo, quer os seus bens de família, estavam guardados, respetivamente, para Cristo e para os pobres.
Santa Cecília era praticamente uma teóloga que rezava, porque levava uma vida contemplativa, dedicando-se à música e aos estudos de Filosofia e dos Evangelhos. Tinha abraçado a fé em Cristo desde a infância, e sentia uma grande alegria na Eucaristia celebrada pelo Bispo Urbano, ouvindo cânticos religiosos e fazendo caridade aos pobres que sempre se juntavam à porta da igreja. Ainda muito nova, de um sermão que ouviu, desejou ser esposa de Cristo, e, secretamente, fez voto de virgindade. Converteu o seu noivo e os guardas incitados a martirizá-los. O seu martírio lento foi prova da grande resiliência da sua fé e entrega a Cristo.
Também Jesus tinha, desde os seus doze anos, alimentado um grande fervor pela casa de Deus, no seu coração, como lugar de oração a Deus. No seu tempo, como no nosso, até as coisas santas podem ser utilizadas para fins não santos. Por isso, o templo puro que é morada de Deus passa a ser a humanidade santíssima de Jesus ressuscitado. E é por este Templo santo que queremos ser “habitados” como Santa Cecília.
A história de Santa Cecília mostra-nos que o que é legal não é sempre moral e como ela, somos chamados a ser resilientes na fé, para não desesperarmos nos momentos de tribulação, no contacto com os ditames do mundo. O modo mais eficaz para sermos perseverantes é cantar com o coração e ser doces, inclusivamente, para aquilo ou aqueles que nos afrontam. Com Cecília, como para quem caminha firme na fé, acontece como se lê no Apocalipse: a mensagem divina poderá ser sentida como amarga no estômago, mas é doce na boca. É este o preço dos profetas: é agridoce a sua vida. Nunca espere um cristão ter uma vida só doce, mas aprenda a aguentar digestões difíceis. Não são estas que fazem diminuir a capacidade de persuadir, pelo contrário: da boca dos verdadeiros profetas sairá a sabedoria de Deus que é capaz de transformar os corações mais duros.
Como Santo Agostinho nos inspira, na leitura do ofício desta memória, deus conhece os seus cantores e há de sugerir a maneira como Lhe havemos de cantar o cântico novo que Lhe agrada. Apuremos o ouvido do coração para sondarmos os seus segredos inefáveis. Procuremos viver em harmonia uns com os outros.
