navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ap 5, 1-10; Sl 149, 1-2. 3-4. 5-6a e 9b Ev Lc 19, 41-44, na Memória da Apresentação da Virgem Santa Maria. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

O rei da parábola de ontem é o Senhor Jesus da realidade de hoje, no Evangelho, Aquele que sobe a Jerusalém para ser condenado pela autoridade competente como um malfeitor, expulso do seu povo. E a parábola de ontem pode ser uma forma antecipada de Jesus dizer o que vai acontecer com Jerusalém.

Segundo a perspetiva de Deus, Ele senta-se no seu verdadeiro trono ─ a Verdade ─ para proferir a sentença “Se ao menos hoje conhecesses o que te pode dar a paz… Dias virão para ti, em que os teus inimigos te rodearão… e não deixarão em ti pedra sobre pedra, por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada”.

Ao não reconhecer Cristo e o verdadeiro sentido da paz messiânica, Jerusalém ficou reduzida a uma simples cidade terrena. Perdeu o seu caráter de sinal salvador e define-se meramente em função do seu extremismo político, representado na sua luta contra Roma. Por isso, sucumbiu na guerra do ano 70 d.C., algo que aconteceu lentamente. E o testemunho dos primeiros cristãos aconteceu em vão. Jerusalém acaba por ficar só, abandonada por Deus e pela Igreja. A cidade da esperança do Antigo Testamento converteu-se em ruínas. Desde aí, a salvação desliga-se das suas velhas raízes palestinianas e encontra-se no caminho de Jesus que, desde o Pai, envia os seus discípulos ao mundo.

Fazendo uma analepse, Maria viveu antecipadamente algo semelhante 33 anos antes deste “vale de lágrimas” de Jesus, aquando da apresentação do Menino Jesus no Templo. E quem o recebeu ali foram aqueles dois velhos ─ Simeão e Ana ─ que representavam a esperança de Israel frustrada pelos planos das referidas autoridades competentes de Jerusalém.

Maria concebeu na fé este Filho de Deus feito homem, porque acreditou pela fé. Aliás, Ela mesma foi oferecida e se ofereceu. Recuando ainda mais nesta analepse, é o que celebramos nesta memória da Apresentação da Virgem Santa Maria, relacionada com uma piedosa tradição atestada pelo evangelho apócrifo de Tiago e que remonta ao século VI no Oriente e ao século XIV no Ocidente. No dia seguinte à dedicação da basílica de santa Maria a Nova, no ano 543, construída junto ao muro do antigo templo de Jerusalém, celebra-se a dedicação que a Mãe de Deus fez de si mesma, desde a infância, movida pelo Espírito Santo, que a encheu de graça na sua Imaculada Conceição.

Também nós só podemos conceber na fé se, como Maria e seguindo os passos de Jesus, acreditarmos na mesma fé. Aos pés da Cruz de Jesus, como se proclama no Evangelho própria da memória (Mt 12, 46-50), nasce uma nova Jerusalém, a Igreja, casa de relações novas, para percursos novos, para novos lugares. Não foi à toa que a sessão da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos “estampou” a renovação da Igreja com estes três tipos de “fios” condutores da conversação no Espírito. É para que a Igreja não fique refém de esquemas ou sistemas autorizados por falsas competências que tentam anular o projeto de Jesus para toda a humanidade.

Que a adoração da tarde seja para todos nós ocasião para renovarmos a nossa apresentação no templo novo e definitivo que é Jesus Cristo, Rei do Universo.