L 1 Ap 4, 1-11; Sl 150, 1-2. 3-4. 5-6 Ev Lc 19, 11-28
Está semeada na Net a história do sapo surdo, uma metáfora que nos fala de uma competição com o objetivo de alcançar o topo de uma torre bem alta. Só um venceu, e todos ficaram surpresos. Ao longo da competição, muitos desistiram porque ouviram palavras negativas. Só um sapinho venceu, pois era surdo.
Não é só um problema da linguagem verbal que, por vezes, interfere no ânimo que o ser humano precisa para escalar até ao mais alto das possibilidades que Deus designou ou sonhou para cada pessoa. Há outras dimensões, como a emocional e a institucional que, não raramente, não deixam que as pessoas criadas com a dignidade fundamental de seres criados à imagem e à semelhança de Deus vivam conforme os desígnios divinos.
No Evangelho, Jesus apresenta-nos uma parábola para nos falar disso. Um homem nobre, os seus servos e os concidadãos. O homem vai ser coroado rei, os servos ficam mandatados para fazer render os seus bens conforme as possibilidades de cada um e os concidadãos confrontam-no com desdém. “Déjá vu?” Nem seria preciso comentar o reflexo que esta parábola tem na realidade dos nossos dias, entre os que procuram viver o Evangelho e os que o ignoram ou sentem como ameaça aos seus projetos mundanos.
Na audiência de hoje, o Santo Padre lembrou-nos que “os leigos têm carismas com os quais contribuir para a missão da Igreja”, dados por Deus para proveito comum, para serem úteis a todos, não se destinando unicamente para a santificação da pessoa, mas à disposição da comunidade. Os carismas são dados a alguns em particular e de forma diferenciada. Portanto, “a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum” (1 Cor 12,7). E lembrando que não há cristãos de segunda classe, exorta:
Devemos redescobrir os carismas a fim de que a promoção dos leigos e em particular das mulheres seja entendida não apenas como um fato institucional e sociológico, mas na sua dimensão bíblica e espiritual. Os leigos não são os últimos, os leigos não são uma espécie de colaboradores externos ou de tropas auxiliares do clero, mas têm carismas e dons próprios com os quais podem contribuir para a missão da Igreja.
Recordando Santo Agostinho, o Papa recorda que no corpo humano, cada membro não serve por si só, mas por todos outros, na unidade. E que a caridade multiplica os carismas.
Ora, Jesus com a parábola do Evangelho quer motivar os seus discípulos a ter autoestima quanto à possibilidade de viver a finalidade para que foram criados, mas alguns contemporâneos atiram setas a essa pertença e estima. Por isso é que, no final, ao que não tem é-lhe tirado o que tem ─ por ter dado ouvidos a quem não devia; e aos que o desmotivaram na escalada da multiplicação dos dons, os “inimigos” do rei, bem… já sabemos.
Quase sempre interpretamos esta parábola centrados da responsabilidade dos servos quanto ao corresponder à tarefa do seu senhor. Precisamos de estar atentos aos inimigos de Nosso Senhor e nossos que, com a falsa promessa de nos aliviar dos fardos pesados, também não nos vão ajudar a chegar a alguma vitória. Um cristão não pode pensar só na própria salvação, mas é chamado a estar atento aos irmãos, para que não se percam ou não deem atenção aos “velhos do Restelo”.
Há uma multiplicidade de tipos de inimigos do projeto de Deus e da alma humana: declarados e disfarçados; internos e externos. Por isso, fazer frutificar os dons que o Senhor confia à sua Igreja e a cada um dos seus membros implica ensaiar a caridade sem medo. Estamos a chegar ao fim do ano litúrgico e é oportuno prevermos que o mesmo é metáfora do final dos tempos, que não sabemos quando será, mas uma coisa sabemos: seremos unicamente julgados pelo amor, quer dizer, a caridade com que vivemos no confronto com Deus e os irmãos. Ilumina-nos, neste caminho, a esperança cristã: a convicção de que temos diante de nós um futuro feliz.


