navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ap 1, 1-4; 2, 1-5a; Sl 1, 1-2. 3. 4 e 6 Ev Lc 18, 35-43. “Os pregadores dirijam-se aos cristãos com a Bíblia numa mão e o jornal na outra” (Karl Barth).

Hoje parei um pouco mais diante deste pedaço de narração evangélica:

Os que vinham à frente repreendiam-no, para que se calasse, mas ele gritava ainda mais: «Filho de David, tem piedade de mim».

─ Lc 18,39

Pode acontecer que entre a Igreja e o mundo, hoje em dia, suceda o mesmo e com alguma frequência: pode acontecer que a altura sonora de certos “gritos” seja proporcional à indiferença religiosa. Entenda-se aqui “indiferença religiosa” não como indiferença de “baixo” em relação ao “cimo”, mas indiferença de quem representa o “cimo” em relação ao “baixo”. Já que religião é um “religare” recíproco entre a realidade divina e a realidade humana. E neste “religare” há só duas autoridades: a de Deus que Se manifesta e a do ser humano que Ele chama ser seu interlocutor. E há uma terceira pessoa: os que “administram” as coisas da religião, facilitadores ou mediadores. Os daquele episódio, “os que vinham à frente” estavam, também, a ser postos à prova: se seriam ainda capazes de ouvir a Palavra do Senhor como resposta aos gritos do homem cego.

Hoje rezo tendo numa das mãos esta passagem do Evangelho e na outra mão a eventualidade de os representantes da Igreja (“terceiras pessoas”) não serem tão facilitadores da ligação entre Deus e a humanidade. Rezo, também, diante deste testemunho do jornalista João Miguel Tavares, que nos servirá de aviso à navegação, com afirmações que me parecem úteis para a pastoral no sentido de nos relacionarmos com o Deus que Se inclina diante dos gritos e interrogações da humanidade errante e sofrida.

A afirmação daquele jornalista que mais me impactou foi “Nós temos na nossa mão a mais incrível história alguma vez contada… E tenho imensas dificuldades em saber porque é tão difícil partilhá-la”. É para mim um desafio: como evangelizar hoje, sem me impor, a não ser deixar que a força amorosa de Deus seja percebida pelos meus contemporâneos?