navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Tt 1, 1-9; Sl 23 (24), 1-2. 3-4ab. 5-6 Ev Lc 17, 1-6, na memória do bispo São Martinho de Tours

Li, hoje, no Expresso um exclusivo sobre a “Geração E”, onde se responde à pergunta «porque é que os jovens se sentem perseguidos por um “medo absurdo” de errar?». E o título já contem uma resposta cabal: «Tenho medo que deixem de gostar de mim». Lê-se ainda que estes jovens «querem, ou sentem que devem, ser perfeitos. Entendem que têm de fazer tudo bem à primeira e, por isso, cada passo é pensado. Sofrem com a possibilidade de desiludir o outro. Nos estudos, na carreira, na vida pessoal, a (auto)exigência é grande. Afinal, para eles, uma falha pode comprometer toda a vida… mas porquê?».

Para muitos jovens, não há muitas escolhas que não sejam ser perfeitos ou não arriscar. Acompanha-os uma tendência desde muito cedo, que é ser bons em tudo. Por isso, vivem “a pressão para o sucesso”, para “ser muito bom sem mácula nenhuma” e “o vazio”. Estão habituados a habitar um certo patamar de onde têm medo de descer, porque vão “ser menos que”. O que os leva recorrentemente ao isolamento e ao choro. Mesmo os que, na teoria, sabem o que fazer para ultrapassar esta tendência do perfecionismo, na prática não conseguem praticá-lo.

Quem acompanha os jovens que se deixam ajudar, relata que se juntam «a culpa, a exigência, a pressão interna e, por projeção, também a externa e a falta de liberdade para sermos quem somos». Os jovens que refletem sobre este drama afirmam vivê-lo «nos momentos mais importantes», como «avaliações definitivas» ou «períodos de decisão acerca do futuro». E quem leva a sério a solução lembra-se «que o erro não é definitivo, mas antes uma oportunidade para considerar a vida a partir de outras perspetivas». Tenta «transformar esses sentimentos em motivação», pensando que não pode «deixar de ser responsável, porque “isto” pode acontecer». Ainda assim, diz «ponderar muito cada passo e as consequências de cada decisão, avaliando as vantagens e desvantagens».

Diante deste medo que inibe e anula a espontaneidade, que parece ser alimentado nos jovens desde cedo, pressionados a resultados imediatos, para não ser rotulados de incompetentes, por uma lado, e o medo de falhar aos outros na vida como filho, pai, namorado, estudante, etc., por outro, vivendo um redemoinho de inseguranças e de comparações «mentalmente esgotante» e «bastante sufocante» com as outras pessoas, e um medo de que deixem de gostar de si mesmos…

o que a Igreja pode fazer?

Os depoimentos que encontramos na notícia já nos mostram as sementes daquilo que a Igreja sempre soube fazer: convidar a estar envolvidos e a dar passos. Resumindo: processos de catecumenado que preparam as pessoas no caminho para o grande horizonte. A comunidade dos crentes transporta uma Escritura Sagrada onde a expressão mais dita é “não tenhas medo”. É transmitida pelo próprio Jesus a verdade de que “Bom” é um só: Deus. E convida-nos a segui-Lo e a partilhar com os outros alegria do encontro com Ele ao mesmo tempo. Diante da possibilidade de errarmos, temos sempre o arrependimento como possibilidade de regressarmos à comunhão e crescermos numa fé de qualidade e não de quantidade ou de estatísticas. Como aprendemos à luz da Palavra do XXXII Domingo do Tempo Comum (B), tal como a farinha da viúva de Sarepta, a graça de Deus nunca se esgota. E como aprendemos na memória de São Martinho, um só ato de caridade fraterna pode encher de valor uma história pessoal. Portanto, trata-se de caminharmos na perfetibilidade que está na nossa estrutura humana poder viver e não numa perfeição automática ou realizada por meras forças humanas. Podemos e devemos contar com Deus! É isto que somos chamados a anunciar ao lado do primeiro anúncio de que Jesus encarnou, viveu, padeceu, morreu e ressuscitou por todos, todos, todos.

A forma como o Papa Bento XVI se referiu a São Martinho no Ângelus de 11 nov. 2007, ajuda-nos a perceber como este santo soube inscrever-se no catecumenado mesmo que o pai dele o quisesse numa carreira militar e mantendo-se ainda por muito tempo ali onde pôde falar do novo estilo de vida. Uma vez consagrado, tornou-se num modelo mundial de autêntica solidariedade. Esta história não se deve só a um homem extraordinário, mas também a quem o acompanhou, nomeadamente, Santo Hilário, que o encaminhou para o sacerdócio e o episcopado. A relação entre São Paulo e o seu jovem colaborador Tito mostra-nos, também, uma relação otimal do que pode acontecer num acompanhamento que se transforma em solidariedade e corresponsabilidade pastoral.

Com certeza que, hoje, o que está a faltar à denominada “Geração E” é esta envolvência entre gerações, entre os que procuram a sua verdadeira identidade humana de filhos de Deus e o próprio caminho de realização pessoal, na perceção e entrega gradualmente mais plena ao amor de Deus. Aquela relação entre Paulo e Tito é suficiente para, hoje, a geração dos mais idosos convidar a geração dos mais novos a envolver-se no que eles fazem ou naquilo em que são responsáveis nas comunidades, para fazerem como que uma passagem de testemunho em estafeta. Há por aí muitas comunidades em que só vemos idosos, também porque faltou esta passagem. A procura de emprego e de “melhor vida” fez o resto.

Com um só gesto do jovem Martinho de Tours, aprendemos a “dar a metade do que se tem para dar o total do que se é”. Há muitos jovens que vivem entre a rigidez de uma educação e caminhos mal ou não andados. Precisam que alguém lhes dê a oportunidade de declararem o arrependimento de não terem dado passos de coragem numa direção pessoal ou, inclusivamente, de terem dado passos mal andados, regressando a um caminho que lhes proporcione viver a sua vocação pessoal.

Um substituto da Secretaria de Estado do Vaticano esteve na inauguração da nova sede da Pontifícia Academia de Teologia, em Roma, e ali afirmou:

No futuro, a Teologia já não poderá conceber-se só como uma “ciência académica”, mas deverá assumir um caráter mais sapiencial, iluminando os passos da vida de todos, em particular daqueles que estão desorientados, para ser capaz de encarnar-se, cada vez mais, nos dramas da existência humana, com os múltiplos problemas que a afligem, mas também o guia para um futuro de justiça e de paz, de fraternidade universal.

Este responsável do Vaticano acrescentou que faz parte da nova missão desta Academia

ampliar os círculos de encontro teológico para aqueles que não creem ou demonstram indiferença para o cristianismo, incluindo com aqueles que se consideram (por suas próprias razões) hostis à fé cristã e à obra evangelizadora da Igreja, imaginando uma improvável “exculturação do catolicismo”: o mundo do racionalismo crítico ateu e do indiferentismo religioso é um desafio para a proclamação do Evangelho.

Às nossas pastorais vocacionais (gerais e específicas) falta irmos ao encontro de quem não nos procura à primeira vista, mas de algum modo faz saltar de dentro alguns “gritos”. Andamos a ir ao encontro de quem não nos ouve, porque transportamos um modelo e uma linguagem que já não corresponde aos anseios e procuras. Precisamos de ir a lugares improváveis e aproximarmo-nos de pessoas improváveis. Disso é exemplo, também, a história de Saulo que virou Paulo. E na história de Martinho, a vocação dele era dar e a vocação do pobre era receber. Confirma-o a visão de Cristo a ser vestido por ele no pobre.

Hoje rezo para que na Igreja se manifeste cada vez mais a coragem para um acompanhamento pessoal mais próximo dos jovens, a par de outras atividades de grupo; e que os agentes pastorais se abracem em projetos comuns e diferenciados de evangelização nos lugares habitados e diante dos dramas sofridos pelos jovens.