navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Flp 2, 5-11; Sl 21 (22), 26b-27. 28. 29-30a. 30c-32 Ev Lc 14, 15-24

Diante das palavras dantescas e do relato das vítimas de acontecimentos como o que aconteceu com o desastre provocado pelo DANA, “as palavras se esfumam e não sei o que se pode dizer sem que soe a oco, a vazio, ao de sempre…”, testemunha a Irmã Ianire. Perder a capacidade de falar aparece assim como a possibilidade de agir em conformidade com a situação que se relata. Parece que a incapacidade de falar nos mobiliza, relativizando as preocupações e colocar em primeiro plano a urgência dos outros. E todos os que por estes dias se preocupam e ocupam em dar resposta a esta urgência “estão todos cheios de barro”. E, diz Ianire, “não há forma de se aproximar dos locais e das pessoas afetadas sem se sujar e estou convencida de que isto não se aplica apenas a esta situação concreta”.

Assomar-se ao abismo do sofrimento alheio, vislumbrar a sua profundidade, sentir o peso do medo e da incerteza, vivenciar o próprio desamparo e deixar-se comover pela realidade só leva a um movimento: adiar discursos e aceitar manchar-se de barro que, sem ser nosso, absorve-nos e cola-se a nós até se tornar parte de nós. Não há como caminhar ao lado de quem está na lama sem ser atingido por ela, seja ela literal ou metafórica.

O máximo exemplo que conhecemos é o abaixamento que Paulo tão bem descreve a respeito de Jesus que, sendo de condição divina, “não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz”. Não estamos diante de uma afirmação teórica, diz Ianire, pois

implica reconhecer que o nosso Deus não é daqueles que contemplam a realidade protegendo-se à distância, mas antes esvaziam-se e envolvem-se com as pessoas até às últimas consequências. Se tentarmos não nos deixar afetar pela dor alheia, sem que ela nos afete, nos prejudique ou complique a nossa vida, acabaremos por falar muito, mas manchando-nos pouco e não é essa a aprendizagem que a Encarnação nos proporciona… nem o povo de Valência.

Medito ser esta a direção da parábola de Jesus acerca do Reino de Deus, apresentado como “banquete” e “assembleia dos justos”: um exercer da vontade prática de estar, não obstante as limitações humanas; um ter que trabalhar juntos, ainda que se tenham os pés manchados pela lama. Se querer, nem poder, elogiar as catástrofes naturais, daqui tiro hoje uma verdade: fazem-nos falta circunstâncias de prova como ginásio para operarmos atitudes fundamentais de evangelização, em vez que nos mantermos numa manutenção pastoral programada por discursos teologicamente vazios.