Solenidade de Todos os Santos / Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos
Cada vez mais, pastoralmente, para os párocos, é difícil programar estas celebrações sem se misturarem as assembleias entre as igrejas e os cemitérios. Intuo que não é só a força das circunstâncias (de haver poucos presbíteros e muitas comunidades), mas também a atração espiritual para uma verdade de La Palice por vezes esquecida: a vida da fé não é feita de appartheids ou guetos, nem caixinhas, mas de comunhão entre etapas de um caminho que é único. O que nos faz estar aqui ou ali não é um prémio pelos nossos próprios méritos, mas pela graça do amor de Deus que é incondicional, ao qual todos, individualmente e em comunidade, dar uma resposta livre e generosa. Por isso, a minha reflexão, respondendo a este duplo chamamento ─ a ver a realidade que vivemos e a atração da comunhão de todos com Deus ─ procura tocar todos os aspetos da vida humana: peregrinação, purificação e santidade.
“Todos, todos, todos” ─ é a expressão que marcou a JMJ Lisboa 2023 e esta última Sessão do Sínodo dos Bispos. Na linha horizontal todos estamos incluídos nesta missão. É claro que as comunidades da Igreja não podem senão ser inclusivas e chamadas a estar de pé e ir ao encontro dos outros no mundo. É verdade que nem tudo vale e nem tudo é necessário para o caminho ─ já Jesus o dizia aos seus discípulos ─ mas todos são incluídos e ninguém deve ficar de fora. Está claro que todos os seres humanos são portadores de uma dignidade infinita que é inalienável e, também, está claro que há atitudes que brotam do coração humano que podem prejudicar essa dignidade.
Nesta ocasião do ano litúrgico, a que popularmente também se chamou de “Páscoa do outono”, sugiro que utilizemos, também, o “todos, todos, todos” indicado pelo Santo Padre na linha vertical (se assim se pode dizer), sublinhando a comunhão entre os que habitam a Igreja triunfante, os que habitam a Igreja purgante e os que habitam a Igreja peregrinante.
1) A Igreja triunfante está no Céu, não é a dos que habitam na terra, como alguns gostariam que fosse, atraídos por uma visão triunfalista de alguns discípulos que prejudicaram/prejudicam o projeto do Mestre. Tomáz Halík já nos advertiu argumentando como esta versão da Igreja triunfante na terra é prejudicial, porque rapidamente é idolatrada e perde o seu teor missionário. A Igreja triunfante é a dos que já veem Deus como Ele é, face a face, razão da nossa esperança.
2) A Igreja purgante é a daqueles que habitam o Purgatório. Caminham par a frente para o abraço de Deus Pai. Partiram para lá ainda com imperfeições que os impedem que querer esse abraço. Não é uma questão de mérito, mas de purificação da vontade. De lá, já não podem sair para o que chamamos de inferno.
3) Da Igreja peregrinante, fazemos parte todos os que caminhamos na esperança do Reino que já está no meio de nós e que virá. Caminhamos entre tribulações e esforços, acolhendo as graças que Deus nos dá para podermos caminhar unidos uns aos outros. Esta Igreja existe para todos e não só para alguns. Porque a sociedade não se divide entre os que praticam a fé e os que não praticam, sugere Tomás Halík, mas relaciona-se entre os que habitam a comunidade e os que buscam Deus.
