L 1 Ef 6, 1-9; Sl 144 (145), 10-11. 12-13ab. 13cd-14 Ev Lc 13, 22-30
Como interpretar a Palavra de hoje diante do drama evocado pelo Santo Padre de que “o drama da Igreja é que Jesus continua a bater à porta, mas da parte de dentro, para que O deixemos sair”? Vejamos o contexto em que o afirma:
E não esqueçamos que todo o cristão é chamado a tomar parte nesta missão universal com o seu testemunho evangélico em cada ambiente, para que toda a Igreja saia continuamente com o seu Senhor e Mestre rumo às «saídas dos caminhos» do mundo atual. Sim, hoje o drama da Igreja é que Jesus continua a bater à porta, mas da parte de dentro, para que O deixemos sair! Muitas vezes acabamos por ser uma Igreja (…) que não deixa o Senhor sair, que O retém como propriedade sua.
─ PAPA FRANCISCO, Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2024
Diante desta afirmação, o que significa o convite “entrai pela porta estreita”, com o aviso de que nem todos o conseguirão mesmo tentando? E o que será a “iniquidade”? Como fazemos uma verificação eclesial das palavras de Jesus, de modo que não sejam manipuladas a bel prazer de qualquer um?
O teólogo padre Domingos Terra, s.j., citando uma Carta dos bispos aos católicos de França (1996), escreve:
O que distingue um membro da Igreja é a sua forma de viver a fé, de agir segundo o Espírito, de “estar em Cristo” e de dar testemunho de Cristo no mundo. Devemos garantir este reconhecimento e respeito mútuos da nossa identidade de crentes e testemunhas. Devemos proporcionar às comunidades os meios para praticarem este reconhecimento e respeito, facilitando a comunicação da fé e da experiência cristã entre todos.
Aquele teólogo conclui que todo o processo de escuta e de acolhimento da formas individuais da fé tem de ser submetido a uma verificação eclesial da fé.
Então, “iniquidade” poderia hoje traduzir-se por todo o individualismo que prejudica a vivência da fé na perspetiva da missão da Igreja. A “porta estreita” poderia ser a capacidade de transparência e prestação de contas, hoje tão requerida pela consciência sinodal. “Iniquidade” poderia traduzir-se por toda a autorreferencialidade que impede a comunhão na missão. “Porta estreita” poderia ser a capacidade de inclusão da diversidade dentro do Povo de Deus, como riqueza para a missão. “Iniquidade” também pode significar “falta de equidade”; e “porta estreita” poderia ser a desobstrução das vias da solidariedade humana.
A este respeito, o Sínodo dos Bispos tem-nos ajudado a perceber como pode esclarecer-se melhor o conceito de Igreja, como “uma comunhão de igrejas que, juntas, caminham, devendo ser, num mundo de violência, testemunha de que na diversidade é possível ser-se unido na fé e um único corpo em Cristo”. Hoje, mais do que falar de uma Igreja universal, pode falar-se de uma “missão universal“, ou seja, não se deve excluir ninguém da missão. Todos são precisos. “Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus”.
Os discípulos-missionários de Cristo trazem sempre no coração a preocupação por todas as pessoas, independentemente da sua condição social e mesmo moral. A parábola do banquete diz-nos que, seguindo a recomendação do rei, os servos reuniram «todos aqueles que encontraram, maus e bons» (Mt 22, 10). Além disso, os convidados especiais do rei são precisamente «os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos» (Lc 14, 21), isto é, os últimos e os marginalizados da sociedade.
─ PAPA FRANCISCO, Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2024
