L 1 Ef 2, 19-22; Sl 18 A, 2-3. 4-5 Ev Lc 6, 12-19, na Festa dos Santos Simão e Judas, apóstolos
Nesta festa dos apóstolos Simão e Judas, escutamos o Evangelho do chamamento dos doze. O relato é cheio daquela dinâmica que foi realizada na XVI Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade: relações, percursos e lugares. Vejamos:
1) “Jesus subiu ao monte para rezar e passou a noite em oração a Deus”. Esta relação de Jesus com Deus Pai é central; o que faz Jesus subir ao “monte” que representa esta relação com o Pai é, também, a relação com os que vivem no “vale” da existência terrena, cujos gritos motivaram sempre Jesus a buscar na oração ao Pai o caminho da redenção da humanidade. Antes, mesmo, da relação com os discípulos que está a formar para serem apóstolos, Jesus tece relações de misericórdia para com as multidões famintas e de confiança com o Pai que O pode iluminar na sua missão de Redentor.
2) Da relação com as multidões e com o Pai, decorre em Jesus a relação com os discípulos e com os apóstolos, escolhidos entre aqueles. Percebe-se que aqui, há percursos de etapas dentro de um projeto global na missão: ouvir, rezar, chamar, escolher. Percebe-se, também, que já um percurso de formação: “chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, a quem deu o nome de apóstolos”. Há aqui uma gradualidade nas etapas e de tempos: ser discípulo/ser apóstolo; noite/manhã.
3) E há lugares ─ o monte, o sítio plano ─ que mostram ações: “desceu”, “ouvir”, deixar-se tocar, “curar”. A força de Deus que está em Jesus é dinâmica e não estática.
A espístola de Paulo aos Efésios mostra-nos que o alicerce dos apóstolos é a relação com Jesus e com a missão de que Ele os incumbiu. É a mesma missão que o Papa Francisco sugere a toda a Igreja (a “ecclesia” de todos os convocados) no final desta 2ª sessão da XVI Assembleia Geral dos Sínodo dos Bispos: uma Igreja sem muros e aberta a “todos, todos, todos”; Igreja chamada a ouvir o grito da humanidade e a superar fatalismo.
Perante as interrogações dos homens e mulheres de hoje, os desafios do nosso tempo, as urgências da evangelização e as muitas feridas que afligem a humanidade, não podemos ficar sentados. Não precisamos duma Igreja sentada e desistente, mas duma Igreja que acolhe o grito do mundo. Deus escuta sempre o grito dos pobres e nenhum grito de dor passa despercebido diante dele. O grito dos que querem descobrir a alegria do Evangelho e dos que, pelo contrário, se afastaram; o grito silencioso dos indiferentes; o grito dos que sofrem, dos pobres e dos marginalizados; das crianças, escravizadas pelo trabalho, em tantas partes do mundo; a voz partida dos que já nem sequer têm força para gritar a Deus, porque não têm voz ou porque se resignaram. O mundo precisa não de uma Igreja sentada, mas uma Igreja em pé, uma Igreja missionária, que caminha com o Senhor pelas estradas do mundo. Não caminhar por conta própria ou segundo os critérios do mundo, mas caminhar juntos atrás dele e com Ele. Se permanecemos sentados na nossa cegueira, continuaremos a não ver as nossas urgências pastorais e os muitos problemas do mundo em que vivemos.
Hoje partilho na oração um “grito” concreto, de dentro das nossas Dioceses: é o grito no primeiro âmbito acima refletido: o das relações. É um grito que denuncia incapacidade de fomentar trabalho em equipa de entre as pessoas ─ consagrados e leigos ─ que representam a diversidade de ministérios. Ser Igreja sinodal missionária exige escuta e diálogo. E mais: exige a conversão das relações, para que haja caminhos conjuntos de oração e discernimento, tendo em vista a escuta dos “gritos”, o realismo sobre as necessidades mais básicas da vida e da evangelização dos destinatários de hoje. Faz muita falta a formação. E é preciso superar o modelo piramidal das estruturas e/ou lugares da Igreja.
Um dia, Judas Tadeu, um dos que hoje comemoramos, recebeu de Jesus esta resposta: «Se alguém Me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará; viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). Se o coração dos que são chamados e seguem Jesus, e dos que são escolhidos por Ele, for morada de Deus, então não haverá obstáculos (como o sucesso individualista, o dinheiro, etc.) que possam dificultar o diálogo e a cooperação entre todos, nas comunidades. Para que, inclusivamente, a própria Liturgia seja “cume e fonte”, deve precedê-la a pastoral profética, para que dela dimane o testemunho eficaz da caridade.
Para que nas comunidades se viva um verdadeiro estilo de Igreja sinodal missionária, oremos irmãos.
