Há mar e mar, há ir e voltar. Quem não conhece este rifão de uma campanha de prevenção contra o afogamento nas praias portuguesas, nos anos 80, da autoria autoria do poeta e publicitário Alexandre O’Neill? É um bom exemplo de como uma frase sugestiva está associada a uma ideia forte, sujo significado ultrapassa o contexto, tornando-se expressão que se aplica a diversas situações. Um aviso para o cuidado que devemos ter nas aventuras do mar, muito vasto e desconhecido, convidativo, mas perigoso, para que as nossas idas tenham sempre regresso.
O Evangelho de hoje sugere-me um outro rifão referente ao contexto da vida cristã: há dor e amor, há escutar e parar. Refere-se ao contexto da vida humana como ela se apresenta em diversas situações ─ como a do cego Bartimeu à beira do caminho ou como a dos discípulos boanerges indigentes dentro do caminho onde não sabem o que pedir ─ descrevendo a forma ou o estilo em que Jesus Se apresenta. No caminho há dor e Jesus caminha com amor, escutando e parando para acolher e cuidar.
O trecho deste XXX domingo é-nos apresentado como contraste do episódio do XXIX domingo do tempo comum. Enquanto que Tiago e João estavam de pé e queriam sentar-se num trono extravagante, o cego está sentado numa situação difícil e quer levantar-se dela suplicando por misericórdia. Enquanto aqueles discípulos querem possuir glória, o Bartimeu larga a capa das suas seguranças pessoais para seguir Jesus. Enquanto aqueles dois querem que o Mestre lhes faça a vontade, Bartimeu recebe de Jesus a pergunta “que queres que Eu te faça?”. A extravagância dos dois irmãos levou à indignação do grupo dos discípulos; a humildade do filho de Timeu fá-lo entrar com alegria no grupo de seguidores de Jesus. Ele não via, mas ouvia bem o que se referia a Jesus, enquanto que Tiago e João tinham Jesus ouvido falar por três vezes o anúncio da sua paixão, morte e ressurreição, mas estavam cegos pelo brilho das honras deste mundo.
Hoje, o desafio mais urgente lançado aos cristãos é deixarem de se querer parecer com os grandes e passar a considerar aquilo em que aos pobres e frágeis é semelhante. Jesus é sumo sacerdote agradável a Deus, pois “não foi Cristo que tomou para Si a glória de Se tornar sumo sacerdote; deu-Lha Aquele que Lhe disse: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei»”. “Ele pode ser compreensivo para com os ignorantes e os transviados, porque também ele está revestido de fraqueza”. Como é que o cristão pode querer parecer-se com os mais poderosos da terra se Cristo, que o podia fazer, quis tornar-Se semelhante com os mais frágeis da terra?
Quase a chegar ao destino da sua total doação ─ Jerusalém ─ Jesus oferece aos Doze o modelo de Bartimeu, como “prova final” de uma escola que aconteceu desde o trajeto iniciado em Cesareia de Filipe, em que deixou aos seus discípulos o essencial para o seguimento radical do Mestre. O amor incondicional que Jesus ofereceu com a sua vida requer respostas incondicionais, por um seguimento apoiado em ideais claros que se desdobre numa missão livre e fecunda. Um discípulo transformado por Jesus Cristo não pode deixar de escutar os gritos dos mais frágeis da terra e parar para os chamar a uma vida mais digna, todos apoiados pelo bem que é uma comunidade cristã.
