L 1 Ef 4, 1-6; Sl 23 (24), 1-2. 3-4. 5-6 Ev Lc 12, 54-59. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
Hoje é nítido que Jesus reconhece à multidão a capacidade de discernir os aspetos da vida no tempo presente ─ julgar entre os sinais dos tempos o que é justo ─, a par da capacidade de discernir o aspeto da terra e do céu ─ a meteorologia. E propõe, com uma pequena parábola, que se aproveite o tempo de caminho com os outros para o diálogo.
As provocações de Jesus trazem-nos, por um lado, o tema da interpretação dos sinais e, por outro, o do aproveitamento do tempo. Uma coisa, não menos importante, é compreender a alternância dos fenómenos atmosféricos, outra coisa é compreender o tempo de Deus para os homens. Os seres humanos são mais rápidos a investigar aqueles fenómenos e a não atender tanto as coisas da justiça de Deus.
O tempo de Deus chama-se kairós, refletindo o modo e o momento em que Ele se manifesta em favor da humanidade e que os homens são chamados a saber perscrutar. Toda a história dos judeus, centrada na promessa e na esperança, foi um esforço para detetar os sinais da vinda de Deus à terra. Jesus, porém, acusa-os precisamente de terem sido incapazes de captar o conteúdo desses sinais. Diante de uma apocalíptica judaica que manipulava os “sinais de Deus” para sugerir remédios de juízos e castigos, o Boa Notícia de Jesus falavam dos sinais da proximidade de Deus que caminha com os homens. O convite de Jesus para hoje é este: não podemos ser só cientistas, seja de que ciência for, mas cristãos, reconhecendo o sinal da urgência de Deus que é Jesus Cristo. O Papa Francisco adverte-nos, por isso, que “não é só com o sabemos que podemos evangelizar”.
A esta capacidade responde o Papa Francisco ao propor-nos, nesta ocasião histórica, a carta encíclica Dilexit nos, “Ele amou-nos”, sobre o amor humano e divino do coração de Jesus. Retomando a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, 350 anos depois das primeiras aparições de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque. 32 mil palavras, 5 grandes títulos e 1 mensagem claríssima: Jesus espera-nos sem condições e sem exigir nenhum requisito prévio para nos amar. E porque é que o Papa Francisco nos lembra isto agora? Porque vivemos num mundo num grande processo de secularização que sobrevive às guerras, aos desequilíbrios económicos… Hoje tudo se compra e paga com dinheiro… e parece que a dignidade depende disso. Vivemos presos num sistema degradante que não nos permite olhar mais além das nossas necessidades imediatas e mesquinhas. E para lutar contra tudo isso, o Papa recorda-nos o mais importante e necessário, que é o coração, o amor. Na certeza de que ninguém nos amou mais que Jesus.
Só partindo de um amor assim ─ incondicional ─ é que poderemos responder às recomendações de São Paulo: de nos comportarmos segundo a maneira de viver a que fostes chamados: procedei com toda a humildade, mansidão e paciência; suportai-vos uns aos outros com caridade; empenhai-vos em manter a unidade de espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança na vida a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, atua em todos e em todos Se encontra. Só a partir de um amor assim é que viveremos não só como resultado de impulsos biológicos, mas como um projeto pessoal de vida.
