navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ef 3, 14-21; Sl 32 (33), 1 e 3. 4-5. 11-12. 18-19 Ev Lc 12, 49-53

No domingo passado, constatámos que à pergunta do Senhor Jesus sobre se poderiam receber o batismo com que Ele mesmo iria ser batizado, os apóstolos “boanerges” (Tiago e João) afirmaram “podemos”. Mas esta resposta sabia a tentativa de negócio, para alcançarem os primeiros lugares ao lado do trono glorioso do Mestre. Era um batismo-moeda-de-troca. Na verdade, ele não existe, pelo menos como existência cristã.

Hoje, Jesus diz-nos “tenho de receber um batismo e estou ansioso até que ele se realize”. Esta afirmação tem sabor de entrega incondicional a um horizonte que dinamiza toda a vida de Jesus e que pode dinamizar, também, os seus seguidores, para terem, como se reza na oração Colecta desta semana “dedicação da vontade e sinceridade do coração” diante de Deus e da humanidade.

A pergunta “Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra?” e a sua resposta negativa, deixam claro que Jesus não veio “estabelecer” uma paz imperfeita e meramente mundana. Manifestou-o de forma clara quando disse aos seus apóstolos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Eu não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize…” (Jo 14,27). A paz duradoira que Jesus nos dá é o Espírito Santo ─ aquele fogo que Ele quer “que se acenda” ─ que deve “arder” nos corações (e não fora) para que vivamos dinamizados pela Palavra de Deus e não pelos maus desejos mundanos que ─ esses sim ─ dividem os membros da família humana.

Pode não ser fácil proclamar este trecho do Evangelho em tempo de incêndios e no meio de uma desavença familiar. No entanto, a “banho” que pode apagar todo o tipo de incêndios que destroem a vida humana é o “sangue” de Cristo, vertido no momento da sua paixão e morte.

Hoje, ao comentar com um seminarista junto ao placard da capela que neste dia se comemora o Dia das Nações Unidas, ele afirmou que é, mais, o “dia das nações desunidas”. Tem razão! Neste mundo, a verdadeira paz não se alcança só com as forças humanas, porque com estas tudo parece declinar-se para a derradeira luta em que uns querem ficar sempre recordados como vencedores aqui na terra. Mas o que importa “aqui na terra”? E o espírito das bem-aventuranças com que Jesus deu a própria vida, convidando os seus discípulos a seguir o mesmo caminho?

No mundo há muitos conflitos e pouca boa vontade de terminá-los. É preciso uma boa dose de profetismo para que a Palavra de Deus e a sua lógica ganhe campo. E o campo mais urgente é o dos núcleos familiares. “Família que reza unida, permanece unida”, costuma-se dizer nos nossos ambientes comunitários. Mas não é sempre assim e não é em todos os lugares. E, não raras vezes, depende a que deus se “reza”… em alternativa ao verdadeiro Deus. Só “dobrando os joelhos” diante do Pai de Jesus é que toda a humanidade poderá perceber e viver a partir da largueza e profundidade do seu Amor. O ser humano precisa de colocar no centro da sua vida Aquele que coloca o ser humano no centro da sua. É esta a reciprocidade que gera a caridade que nos atrai para a verdadeira paz. Precisamos de contemplar Deus através de tudo e de todos, uma vez que como rezamos no Salmo 32, a sua bondade encheu a terra. Jesus convida-nos a estar batizados no amor incondicional que gera a paz.

Hoje mesmo, o Papa Francisco publicará a carta encíclica “Dilexit nos” sobre o amor do Sagrado Coração de Jesus “para um mundo que parece ter perdido o coração“. Oportunamente, deverá estar publicada aqui.