navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ef 2, 1-10; Sl 99 (100), 2. 3. 4. 5 Ev Lc 12. 13-21

Não é difícil de constatar como na ocasião da partida dos pais, e na consequente partilha da herança que eles deixaram, os seus filhos vivem o processo de luto. Também se percebe como é que os filhos em luto viveram: se num estilo de serviço, se, como os apóstolos “boanerges”, viveram com a mania de reivindicação de direitos (cf. liturgia da Palavra do domingo de ontem). Ora, um processo de luto ainda é uma aventura complicada, que deverá ser levada a sério, se não quiser-se viver amargurado toda a vida ou com remorsos desnecessários. Não raro, as questões das partilhas de bens atrapalham o processo de luto, cujo caminho, segundo o modelo Kluber-Ross, comporta 5 fases que vão da negação até à aceitação, por um processo que é perfeitamente compreensível do ponto de vista antropológico. Como vimos na liturgia de ontem, por vezes, aqueles que se dizem teoricamente seguidores de Jesus começam por aceitar teoricamente o Seu caminho, mas, à medida que se aproximam dos desafios mais difíceis acabam por negá-l’O.

O caminho de seguimento de Jesus tem alguma coisa que ver com o processo de luto, no que toca a trabalhar as resistências interiores à Palavra de Deus, desde as negações pessoais até à aceitação da verdade, não obstante a cruz que a sua defesa comporta. A este respeito é claro o ensinamento de Jesus com a parábola dos dois filhos, que um pai convida a trabalhar na sua vinha. O primeiro diz-lhe que vai, mas depois não aparece. O segundo nega à primeira, mas depois comparece para trabalhar (cf. Mt 21,28-32). Habitualmente, vê-se na morte a forma como se viveu. Assim se vê na forma como se faz o luto, também, a forma como se ligou com os entes queridos em vida.

O que hoje levo à oração ─ com a bíblia numa das mãos e o jornal na outra ─ não é um facto noticioso em particular ou isolado, mas uma dimensão da missão da Igreja que esteve em relevo neste passado fim-de-semana: a Catequese. Nas Jornada Nacional de Catequistas, concluiu-se que a catequese deve ser laboratório de esperança, fazer crescer a esperança no coração dos mais novos. Apontou-se a estuca atenta das novas gerações como fundamental, para se perceber o que falta aos mais novos, antes do que não é essencial. O que pode responder ao essencial é a fé, o encontro com Cristo, o acolhimento na Igreja. Para isso, é preciso renovar, melhorar, implementar novas formas de comunicação. É, pois como “um laboratório de esperança” que o Presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e da Doutrina da Fé vê esta missão da Igreja que é a Catequese.

Ezio Aceti, um psicólogo especialista em crianças e adolescentes diz que a “catequese e a transmissão da fé: ou se torna vida ou é como se não existisse”. E sugere que se deve partir sempre das atitudes pessoais renovadas, ter-se presente os conteúdos que se querem transmitir, os destinatários e os modos de transmissão. De facto, o crescimento pessoal e o meter-se na “pele” do outro são os dois “pêndulos” por onde se vai “baloiçando” um testemunho credível da vida da fé.

Por vezes, pensamos nas crianças e adolescentes dos países em guerra, concluindo rapidamente que os mesmos, pelo facto de terem crescido a sofrer o barulho da guerra, as perdas traumatizantes e a saber manobrar armas, sem terem vivido a infância a que tinham direito, o mais provável é que irão transformar-se em vingadores dos seus antepassados. Hoje, penso, também, em tantas crianças, adolescentes e jovens do Ocidente que, por causa de uma educação com grande peso ideológico, pouco assente em valores transcendes, não irão usufruir da vida como seria desejável à luz de uma revelação que não tira nada à felicidade humana, mas pelo contrário, a eleva a possibilidades que o ser humano, sozinho, nunca conseguiria alcançar. Como refletiu o Papa Francisco na carta Patris Corde, há pouca castidade nos pais que impedem os seus filhos de descobrir, decidir-se livremente e viver a sua própria vocação, com base no conhecimento da relevação do amor infinito de Deus para cada pessoa.

Como é que uma pessoa que frequentou, hipoteticamente, um percurso oficial de iniciação cristã poderá cair na “esparrela” de colocar o coração em “grandes celeiros para guardar bens terrenos” e esquecer-se dos valores espirituais que lhe podem garantir a salvação? Se estes alicerces não estiverem lá e pesar mais a vontade de possuir bens materiais, então, é óbvio que a iniciação cristã não aconteceu! A insensatez para a qual nos adverte o Senhor no Evangelho reflete a forma como se governa a hierarquia de valores na própria vida e na daqueles que educamos: se o que edifica a alma à frente do que edifica a vida material ou o contrário. O bem possível seria, porventura, colocar a par, usando tudo para o bem maior que é “tornar-se rico aos olhos de Deus”. O que implica, à partida, não acumular, mas confiar e colocar tudo ao serviço.

O crente credível transmite com a sua própria vida a fé, isto é, transmite a vida nova do Espírito que nele age. Mas também os pais transmitem aos filhos, com o seu exemplo, a sua bondade. Contudo, os pais informam também os filhos sobre conhecimentos úteis para viver e para enfrentar as diferentes atividades da existência. Os conhecimentos científicos, humanos, sociais são transmitidos aos filhos, no respeito pelo seu desenvolvimento evolutivo. Para as verdades da fé devia ser o mesmo… Mas não. Porque a vida de Cristo, ainda que possa ser narrada e explicada com as verdades teológicas e espirituais, só pode ser compreendida se é vivida, testemunhada. O Evangelho é a “narrativa” da vida de Cristo, vivo hoje, e torna-se contagioso.

Ezio Aceti

Hoje peço que Deus ilumine e guie todos os pais e educadores ─ primeiros responsáveis pela transmissão da fé dos seus filhos e educandos ─ para que sejam capazes de dar testemunho da “vida nova” através do estilo de vida de serviço, e os bens materiais não se interponham nesta causa da vida cristã que é colaborar na salvação. Rezo igualmente por aquelas famílias em que a falta dos bens básicos interfere, também, numa confiante vivência da fé cristã, muitas vezes adiada até ao momento em que a justiça lhes bata à porta. Rezo para que a missão profética da Catequese nas comunidades seja mais organizada como caminho aberto a todos do que como pódio de favorecidos que é indiferente ou exclui os últimos da sociedade. Que a Catequese seja um lugar de parresia, para que não se simule a caridade com a falta de justiça.

Hoje devemos pedir ao Senhor a graça da parresia. O que é parresia? É falar claramente, sem medo e sem hesitação ao enfrentar ameaças de poder. Porque a imoralidade, além de chamar de covarde aquele que não fala, consolida aquelas estruturas do pecado subterrâneo que distorcem a história e atrasam o caminho da paz.Don Tonino, Bispo