navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ef 1, 1-10; Sl 97 (98), 1. 2-3ab. 3cd-4. 5-6 Ev Lc 11, 47-54, na memória de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir

Gianfranco Ravasi partilha connosco esta pequena história e reflexão para nos ajudar a perceber que a Verdade que está em Jesus requer uma alma pura e aberta a todos, sem fechamentos que impeçam a instauração do Reino de Deus:

Um homem bateu à porta do céu. “Quem é você?”, foi questionado lá de dentro. “Eu sou judeu”, respondeu. A porta permaneceu fechada. Voltou a bater e disse: “Sou cristão”. Mas a porta ainda permanecia fechada. O homem bateu pela terceira vez e foi-lhe novamente perguntado: “Quem és tu?”. “Eu sou muçulmano.” Mas a porta não abriu. Ele bateu novamente. “Quem é você?”, perguntaram-lhe. “Sou uma alma pura”, respondeu. E a porta abriu-se.

Místico e poeta muçulmano, Mansur al-Hallaj (858-922) morreu primeiro crucificado e depois decapitado, deixando um extraordinário testemunho de fé e de amor. Dos seus escritos extraímos esta sugestiva parábola. A verdadeira pertença religiosa não se mede – como reiteraram os profetas bíblicos – pela adesão exterior, pelos atos de culto, pela ostentação, mas pela fidelidade íntima, pela pureza da alma, pelo amor trabalhador. É esta escolha de vida que abre as portas para o reino dos céus.

Mas gostaríamos agora de anexar outro testemunho muçulmano (também para mostrar uma face diferente do Islão em comparação com a face fundamentalista).

O místico Rumi (1207-1273), fundador dos dervixes rodopiantes, disse: «A verdade era um espelho que se partia ao cair. Cada um pegou num pedaço e, vendo nele refletida a sua própria imagem, acreditou possuir toda a verdade.” O glorioso mistério da verdade precede-nos: devemos pôr de lado toda a arrogância ideológica e espiritual e ouvir também o outro com a sua bagagem de verdade por ele descoberta. É claro que isto não significa que todas as ideias e crenças sejam automaticamente fragmentos da verdade, sendo possíveis as miragens, as ilusões e a cegueira. A autenticidade brilhará através do amor, da doação a Deus e ao irmão, da investigação humilde e apaixonada.

São Gregório Magno reflete que os judeus, antes de vir Cristo acreditavam n’Ele e anunciavam a sua vinda. Mas depois que Ele veio, disseram que não era Ele que esperavam. Acrescenta que “a ciência foi roubada aos velhos, pois não seguiram, na sua crença, as previsões que a sua memória guardava de seus pais”. a ciência foi roubada aos velhos desde o dia em que foi recebida pela Igreja, menina vinda dos gentios, que diz pela boca do salmista: «Tenho mais entendimento que os anciãos» (Sl 118,100). Com efeito, é por ter aprendido a ciência através da prática que ela pode mostrar que compreendeu mais do que os antigos.

É o que a Igreja, hoje em dia, procura colher à semelhança dos mártires de todos os tempos: a verdade que está semeada em gestos de coerência que levam à paz verdadeira. Santo Inácio de Antioquia “é testemunha de uma Igreja centrada na Eucaristia, numa sinfonia de perfeita unidade e concórdia com o bispo e o seu presbitério.” Rezemos hoje pela unidade nos presbitérios das nossas dioceses. (que sejam mais parte das soluções e não dos problemas…).

Ler mais sobre Santo Inácio de Antioquia (em espanhol): Santo Inácio de Antioquia, o portador de Deus que acabou convertido em farinha de Cristo