navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Gl 4, 22-24. 26-27. 31 – 5, 1; Sl 112 (113), 1-2. 3-4. 5a e 6-7 Ev Lc 11, 29-32

Conforme Jonas para os ninivitas e Salomão para a rainha de Sabá, assim Jesus Cristo para os homens e mulheres de hoje, dentro de um mundo tão polarizado e dividido, onde poderíamos perguntar: quem é que sabendo que existiria uma cura para o cancro iria ficar-se por paliativos? Assim, sabendo que Cristo foi capaz de encarnar, morrer e ressuscitar em favor de toda a humanidade, quem não seria capaz de Lhe dar um mínimo de reconhecimento em favor da própria existência e salvação? Ninguém pode substituir Jesus Cristo como sinal de salvação. Podemos apresentá-l’O e representá-l’O, ou seja, testemunhá-l’O. Mas não substituí-l’O! Este abuso de poder que leva muitos a fundamentar guerras e exclusões da sociedade da paz.

Ainda hoje, o sinal que é o próprio Jesus, que nasceu para salvar toda a humanidade, não é reconhecido. Ele é sinal entre o Deus Bom (como referiu ao homem rico, cf. Mc 10, 17-30) e a humanidade. E converter-se a Ele continua a ser sinal de contradição. O que é que se perderá com Ele? E o que é que se ganha? Continua Jesus a estar diante de nós como esteve diante daquele homem rico, a sugerir que adoremos a um só Senhor, o único Bom e não a dois senhores. Adorar o verdadeiro Deus não é compatível com a adoração aos bens materiais, fonte de tantas guerras e perseguições. Nem mesmo a adoração por mero cumprimento de leis satisfaz o coração. O que satisfaz o sonho de viver plenamente é colocar a vida diante de Deus e dos outros como dom. Já que o que somos e temos recebemos d’Ele. Jesus quer que comecemos a viver a eternidade a partir daqui, doando a própria vida.

As perseguições juntam-se onde existe a possibilidade de se anunciar e ganhar o Reino através de uma vida doada a salvar os outros. Mas porquê? Porque há algumas pessoas presas a um território sem horizonte? E porque é que há muitas pessoas a sofrer com isso, a sonhar um horizonte grande, sem território de paz? Portanto, Jesus precisa de missionários que O levem como sinal, ainda que O queiram apagar ou ser indiferentes a Ele. Mas Ele é a única chave mestra para garantir uma vida plena. Os mártires (os que dão testemunho de Jesus com a própria vida) são “evangelhos vivos” e presença viva deste “sinal mais”.

Franz Jalics, na sua obra “Escutar para ser. A dimensão contemplativa das relações interpessoais” afirma que

a relação com os outros determina a nossa relação com Deus e vice-versa. A relação com Deus e a relação com as outras pessoas discorrem sempre em paralelo e que uma para a outra podem ser banco de prova ou controlo de autenticidade. Porque é o mesmo coração humano que entra em contacto com Deus e com os outros. Por esta razão, quem alcança uma atitude contemplativa no seu trato com Deus será também compreensivo com as pessoas com quem se relaciona e se abrirá a elas com confiança e paz. Claro que também é certo o contrário: quem não é capaz de entender os seus semelhantes e de comunicar-se com eles, tão pouco chegará longe na sua relação com Deus.

Ser sinal como mártir, dando testemunho, é ser encurtador de distância entre Jesus e a humanidade. Há distâncias geográficas enormes como aquela a que estava sujeita a rainha do sul em relação a Salomão; e há a distância da não-vontade com que, inicialmente, resistiu Jonas ao convite de Deus. Será que pelo facto de Jesus ser um sinal ainda maior, ainda tenhamos de ser confrontados por distâncias maiores? Porquê, se da parte de Deus não temos um sinal mais próximo do que o seu próprio Filho? Quem quer participar na missão da Igreja terá de sujeitar-se a uma contínua conversão que é dupla: a Jesus e aos irmãos, com quem Ele sempre se identifica.

O papado de São Calisto I ─ de que hoje se celebra memória litúrgica ─ foi marcado, na passagem do 2º para o 3º século do cristianismo, com as críticas de ser demasiado indulgente ao administrar o sacramento da penitência, absolvendo mais vezes do que as que eram previstas as pessoas com certos pecados graves, acolhendo-as na Igreja. Ele próprio sabia o que era ter sido escravo e exilado. Havia um grupo de “rigoristas” que travaram uma rebelião com ele, por cauda da vida precedente de Calisto e por estarem contra aqueles pecadores. Muitas vezes, as resistências que levam os crentes a ser sinal de Cristo são interiores e exteriores. Muitas vezes a falta de missão ou demissão advém de muitas divisões doutrinárias internas (como o adopcionismo* e o modalismo** com que o papa Calisto se debateu). A renovação que a Igreja precisa de empreender continuamente serve para que ela mesma não defraude a missão que o seu Fundador lhe confiou: a de libertar e não escravizar.

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* Adopcionismo é a heresia segundo a qual Jesus não foi Filho de Deus senão a partir do Batismo no Rio Jordão, onde foi adotado como tal. A Doutrina da Igreja postula o que rezamos no Credo niceno-constantinopolitano, a respeito de Jesus: Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, / nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, / Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, / gerado, não criado, consubstancial ao Pai. / Por ele todas as coisas foram feitas. / E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus: / e se encarnou pelo Espírito Santo, / no seio da Virgem Maria, e se fez homem.

** Modalismo é a heresia segundo a qual Deus é uma única Pessoa, adotando várias modalidades conforme a sua intervenção histórica na salvação da humanidade. A Igreja Católica transmite a verdade revelada por Jesus de que Deus é Uno e Trino, uma só Natureza, três Pessoas.